quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Amor, Vai Entender, Né?

O uber finalmente tinha chego. Que ideia levar meu carro no mecânico justo ontem. Quando ouvi o freio da minha “carona divina” chegando na frente de casa, meu coração não agiu como eu esperava.
Ao invés de ficar mais calmo, ele se acelerou. Podia sentir a pressão contra o meu peito. Minha garganta parecia dilatar para que ele pula-se para fora. Engoli o resto de saliva na minha boca, quase seca, de ansiedade e desespero. Peguei as chaves de casa, ajeitei o sobretudo preto nos ombros e deixei a porta bater ao sair.
A chuva me acertou na cara. Ri da ironia. Era como se o mundo estivesse me dando o tapa que ela não me deu. Também não sei se eu merecia tanto, mas vai saber o que ela estava pensando na hora.
Entrei no carro reproduzindo em looping, full HD, 4K, a discussão de noite passada na minha mente. Justo antes dela sair em viagem. Sou um idiota. Passamos a manhã inteira agindo como se nada tivesse acontecido. Ela saiu e nem mesmo tocou no assunto. Me beijou no rosto, sorriu como sempre sorri e disse que me amava antes de entrar no uber e ir pro aeroporto. Por que eu não falei nada sobre a briga? Animal!
O motorista perguntou “para onde” em voz alta. Já devia ter repetido aquilo umas mil vezes enquanto eu estava na minha auto-hipnose torturante. “Aeroporto”, eu disse, e peguei o celular. Liguei, liguei e liguei. Não chamava. Sem sinal. Sem área. Culpa da chuva ou dá operadora morta! Meu pé quicava contra o tapete de borracha do carro com cheiro de lavanda.
O cara olhou nos meus olhos pelo retrovisor e perguntou se eu estava bem. Considerando a situação toda, acho que não fui tão educado quanto gostaria de ter sido. Meu “sim” deve ter saído bem mais nervoso do que eu esperava, porque ele não disse mais nada. Coitado. Se o ver de novo, preciso pedir perdão pelo vacilo.
Acho que eu nunca fiz uma viagem tão longa na minha vida. Dizem que o tempo é relativo. Depende de como percebemos ele. Bom, me parece que o espaço segue as mesmas regras agonizantes. As ruas não pareciam ter fim e a chuva só tornava tudo mais parecido com uma cena daqueles filmes românticos que ela me faz ver, onde o cara perde a garota e entra em um carro sob a chuva.
Pensei na hora: “Eu to ferrado!”.
O carro parou, finalmente, e eu desci desesperado. O motorista me gritou o preço e eu atirei uma nota no banco, falando pra ele ficar com o troco. Me agarrei no casaco e corri, tentando não escorregar, pra dentro do aeroporto.
Se eu fizesse a mesma corrida todo dia, como a que fiz procurando ela naquele lugar, estaria mais do que pronto pra disputar a maratona. Mas é claro que as coisas podem piorar. Não estava achando ela, não me lembrava qual era o avião e minha gastrite atacou.
Senti todo meu café da manhã subindo pelo esôfago em forma de gás, trazendo uma mistura de sabores que estavam mais agradáveis antes deu ter comido.
Foi então que eu a vi! A mala dela na verdade, mas depois reconheci a jaqueta de couro preta e tive certeza que era ela. Apressei o passo, mas ela estava concentrada no painel de vôos e não me viu chegar. Tomei ela pelo braço.
Acho que nunca a tinha beijado daquele jeito.
Me esqueci que ela odiava esse tipo de coisa em ambientes cheios de público, mas pra minha felicidade ela retribuiu e depois me olhou sorridente com uma cara de quem não estava entendendo nada.
Comecei a pedir perdão, com medo de que ela fosse visitar a mãe dela e não voltasse mais. Se acredita que ela me disse que não estava acompanhando meu raciocínio?
Falei da briga. Ela disse que estava tudo bem e que não tinha sido nada de mais, com tamanha tranquilidade que eu não consegui acreditar. Eu disse que passamos a manhã toda fingindo que nada tinha acontecido. Ela disse que não estava fingindo, mas me achou mesmo meio estranho.
Minha cara de incrédulo a fez rir.
Eu disse que nem acompanhei ela até o aeroporto por causa da discussão. Ela achou que era porque iria gastar o dinheiro do uber de ida e volta, ao invés de só ida, depois brincou dizendo que não adiantou nada já que eu fui atrás e depois teria que voltar.
Perguntei se estava mesmo tudo bem, mas ela simplesmente disse que sim e me deu um beijo discreto. Checou o painel e disse que tinha que ir, me abraçou, eu me despedi e ela se foi.
Como combinado, ela voltou três dias depois e só se lembrava desse acontecido por causa das minhas caras cômicas de preocupado quando cheguei no aeroporto.
Eu não entendi o que aconteceu até hoje. Uma vez comentei com ela que iria me preocupar menos com nossas discussões. Ela disse que eu deveria fazer isso, porque se não minha gastrite atacava.
No mês seguinte, discutimos por causa de comida. Eu agi normalmente no dia seguinte, sem me preocupar e ela achou que eu estava sendo sínico. Foram dias tendo que me desculpar.
É... Conclusão?
Não conseguiria viver sem ela. Dizem que é amor. Vai entender, né?

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

MORTE AOS HERÓIS - CONTO: VINGANÇA

O forcado subia e descia. A cada golpe, o farfalhar do feno. A cada investida, o cabo de madeira se manchava com os pingos de suor. As mãos jovens, mas calejadas do trabalho no estábulo, refletiam a vida de todos os dezesseis anos de Sigwil.
O garoto fora amadurecido pelo trabalho braçal, não só na mente, mas no corpo também. Sua ascendência também o ajudara com uma barba precoce, tão negra quanto seus cabelos, e olhos acinzentados que pareciam carregar o peso do mundo, contudo, na prática, só carregava o peso de cada garfada no montante de feno. Uma maior do que a outra, em uma espécie de desafio pessoal. Os pés, em botas de couro meio abertas, deslizavam na terra úmida.
O céu estava escuro, como sempre, nos últimos anos. Era dia, mas o sol fracassava em tentar fazer seus raios atravessarem a espessa camada de nuvens cor de aço. Lampiões a óleo iluminavam o estábulo da família Ifrid, fazendo as sombras dos cavalos bruxulearem contra as paredes de madeira constantemente envernizada, devido ao aumento das chuvas nas últimas estações.
Grimjeff Ifrid, o patriarca e último membro da família, abriu sua mãozorra e atingiu as costas largas e nuas do garoto que pulou num susto.
– Se você se assustou, é porque está aprontando! – Falou alto, com seu vozerão, para em seguida desmanchar em risadas largas.
Sig tirou a mão de Grim de suas costas com um gesto de ombro e ficou em silêncio. Feno subia do chão, feno descia para dentro do estábulo.
– O que foi Sig? Não vá me dizer que está assim por causa da conversa de ontem!? – Colocou os braços largos na cintura e encarou o afilhado com seus pequenos olhos azuis em meio aquela cabeçorra cheia de barba grisalha.
Era calvo, Sig não sabia se por opção, pois sempre estava de cabeça careca. Seu corpo era cheio e tinha pele morena, muito mais escura que a do garoto, manchada por uma época em que havia sol para castigar os trabalhadores braçais. Também era cheio de cicatrizes, a minoria da roça, a maioria do seu serviço como guarda.
– To trabalhando Grim! Não é isso que tenho que fazer? – O feno se movia mais rápido, na mesma frequência com que a voz de Sigwil se alterava.
– E não tem nada de errado nisso! O suor do seu trabalho é útil aos cavalos e os cavalos são úteis a nós! Muito mais do que agitar uma espada por aí! – Sua voz ribombava, mas parecia passar pelo jovem como uma brisa leve, sem efeito contra a teimosia.
– Você agitou a espada por muitos anos! Foi tudo inútil? Tudo pelo que vocês lutaram foi inútil? – O feno parou de ser agitado. O garoto se virou, inflado de frustração.
Os cavalos começaram a respirar mais rápido. Um suor incomum lhes escorria pelas cabeças equinas.
– Isso é passado! Já lhe disse! Era outra época! O mundo mudou Sig e eu mudei com ele! Quer ouvir a verdade? Fomos derrotados! Foi tudo inútil! Guardei as fronteiras dessa porcaria de reino por mais de dez anos! Nunca ganhei nada por isso! Só me restava pensar nas vidas que protegia! Hoje, elas estão mortas! Quando finalmente decidi mudar de vida, todos, inclusive seus pais, me olharam com esse mesmo olhar! – A fala começou a crescer em berros. Os braços largos gesticulando violentamente. Os cavalos agitavam as cabeças e relinchavam. – Mas sabe o que seus pais fizeram quando decidiram seguir as ordens do Rei Aldera? Que Ifreann o carregue! Eles deixaram você comigo! Eles sabiam onde estavam se metendo e sabiam que não queriam isso pra você!
Um bafo gélido começava a sair das respirações pesadas dos dois e dos animais.
– Dane-se o que eles queriam Grim! Dane-se o que você quer! Estou cansado de ter minha vida decidida por um casal de mortos e um velho deprimente!
– Não fale assim dos seus pais! – A mão subiu no ar, mas foi interrompida pela consciência.
– Eu nem me lembro dos seus rostos! Eu sou filho do esterco que você me fez carregar todos esses anos! – O forcado foi elevado e mirou Grim na altura do peito.
As hastes de ferro da ferramenta estavam esbranquiçadas. Os pelos dos dois eriçados. Um dos cavalos deu um coice na parede de madeira do seu cercado, tirando a mente dos dois da briga.
Sig, que conseguia ver o céu por detrás do padrasto, franziu o cenho.
– Neve? – Pensou em voz alta.
Grimjeff se virou, sem entender o que acontecia e ao ver a neve caindo em pequeninos flocos, cobrindo a terra molhada que ficava cada vez mais esbranquiçada, tremeu.
– Magia... – Quase sussurrou.
– O que?
– Magia Sig! É magia! Pra dentro da casa! Agora!
A magia havia sumido do reino nos últimos anos. Os últimos magos da corte do Rei Aldera II haviam exterminado os feiticeiros, conjuradores por instinto, apenas para serem exterminados pela própria Igreja Alderana anos mais tarde. Restando apenas os conjuradores divinos do reino, Grimjeff sabia que aquele congelamento arcano da região significava a presença de algum mago ou feiticeiro externo.
Os dois correram a paços pesados de lama, adentraram a porta do casebre, todo em madeira envernizada, simples, mas bem cuidado para ser resistente.
– Para o porão garoto! Para o porão! – Ele falava tentando não gritar.
Sig abriu a portinhola abaixo de um tapete de pele de urso enquanto Grim apagava as lanternas de dentro da casa. Logo, os dois estavam escondidos abaixo do assoalho. Uma pena o guarda não ter a mesma esperteza em apagar as lanternas do estábulo.
Não demorou muito e ouviram cascos, em galope lento, já bem próximos da casa. Os dois se questionavam como não ouviram os cavalos se aproximando, mas apenas em suas mentes. Não ousavam emitir um único ruído desnecessário. Já haviam feito aquilo outras vezes, para escapar dos devotos da Igreja Alderana.
Uma voz ecoou pela casa, masculina, altiva, fazendo a espinha de Grimjeff tremer como se alguém a substituísse por blocos de gelo.
– Grim! Grim! Você está ai?
O guarda não conseguiu manter o silêncio. Sua boca pendeu em um nome, como se fosse uma espécie de palavra sagrada sendo sussurrada.
– Wulfwil...
Sigwil sabia que este era o nome do pai que nunca conheceu. Congelou. Sua mente foi engolida por um turbilhão de perguntas que exigiam serem respondidas imediatamente. Ficou de pé em meio a escuridão do porão e começou a procurar a escada.
O padrasto ouviu os passos do afilhado e com sua visão treinada, procurou-o no escuro, o engolfou em um abraço de urso e tapou sua boca. O jovem se debatia enquanto a voz sobre o assoalho continuava.
– Grim! Eu sei que está aí! Eu quero meu filho de volta! Eu voltei, amigo! Porque se esconde?
Sig mordeu a mão que tapava sua boca, conseguiu uma brecha, um instante de fôlego e gritou:
– Aqui embaixo, pai! – Lágrimas lhe escorriam dos olhos. Era inacreditável.
A voz respondeu.
– Sig! É você? Não se preocupe filho! Eu vou buscá-lo! – Confiante. Sem titubear ou demonstrar abalo.
Grimjeff queria espancar o garoto ali mesmo. O terror que sentia era inexplicável. Era impossível. Como ele poderia estar vivo? Como ele poderia ter sobrevivido? Se o tivesse, jamais estaria atrás do filho. Provavelmente estaria junto da esposa, desafiando legiões de demônios ou bruxas, buscando dar um fim a maldição que recaiu sobre o mundo conhecido nos últimos anos.
A porta do porão se abriu. Nenhuma luz veio. Apenas uma brisa gélida que incomodava a garganta e as narinas de quem respirava.
Sig estava desmontado, já não tendo mais forças para enfrentar o agarrão de Grim, nem fôlego em meio ao choro incompreensível.
O dono da casa olhava para o breu. Ouvia os passos de alguém descendo. Enxergava apenas uma silhueta. Mesma altura. Mesmos ombros largos. Mesmo passo lento e confiante. Não podia ser verdade. Mas era. Sentia que era.
Soltou o garoto que desabou no chão e começou a se arrastar para o pai em meio a escuridão.
A silhueta se abaixou. Parecia de joelhos. Tomou o filho nos braços e deitou-o a sua frente. Levou as duas mãos ao pescoço de Sigwil e apertou firme, com sobriedade o bastante para impedir o ar de passar sem quebrar nenhum osso.
Grimjeff Ifrid quebrou. Era Wulfwil matando o filho que nunca vira crescer. Desistiu de tudo. Se levantou e passou a correr em direção a saída secreta que levava para o estábulo. De lá, pegaria um cavalo e cavalgaria até a cidade mais próxima, buscaria refugio e beberia até se esquecer de tudo.
Um bom plano, que nunca se concretizou.
Quando surgiu em meio a neve e a lama, através de um alçapão dentro do estábulo, viu todos os cavalos congelados. Inertes em posições de relincho ou coice. O frio o engoliu a ponto de sentir sua pele querendo se contrair. Abraçou o próprio corpo. Ouviu outra voz e se virou impulsivamente.
– Grim... Há quanto tempo... – Era feminina. Ao mesmo tempo doce e amarga. Não precisava ver quem era a dona da voz. Sabia que a única mulher que o deixava tão inseguro era a esposa de Wulf. Ainda assim, olhou.
Vessa era a fonte do frio. Suas mãos emitindo feitiçaria gélida ao lado do corpo. Suas curvas cobertas por robes de couro justo com frestas para mobilidade. Seu rosto oculto pelo capuz. Havia algo de errado.
– Ves-Vessa! Co-como? Co-como? – Era todo tremor e gaguejo.
Ela levou as mãos ossudas, quase sem pele e azuis de gelo, ao capuz e o tirou. Seu rosto ainda era visível, ainda era belo, mantido pela feitiçaria, mas toda a pele era levemente azulada, assim como os olhos. Suas sobrancelhas eram brancas assim como o cabelo preso em um coque. Das brechas expostas da roupa, via-se a pele azul ou ossos protuberantes. Os lábios sem vida se abriram, mostrando, através da arcada dentária, um interior oco e escuro.
– Encontramos o lado certo desta guerra, Grim... Fomos traídos... E estou feliz por isso... Agora vejo... Quem são nossos verdadeiros inimigos... – Ela se aproximava, dele, gesticulando com calma, um passo de cada vez.
– O-o quê vocês encontraram!? O que se to-tornaram!?
Pelo outro lado do estábulo, Wulfwil surgiu carregando Sigwil morto em seus braços. Era todo armadura, das grevas das botas até as largas ombreiras. Nenhum brasão ou símbolo. O rosto era irreconhecível, pois não tinha nada além de um crânio humano com cicatrizes. Ainda assim, exalava alguma espécie de aura que fazia Grim reconhecê-lo.
– Nós nos tornamos imortais! Nos tornamos senhores de nossa própria existência! Ela fez por nós, em um dia, o que Aldera nos prometeu por anos! Finalmente temos a chance de purificar esse mundo do verdadeiro mal que o acomete!
Enquanto falava, Wulf caminhou até o lado da esposa. Ao final de suas palavras, levou sua mandíbula até o rosto de Vessa que o beijou. Ela então acariciou a cabeça do filho e voltou a olhar para o guarda que estava estático, pelo frio e pelo medo.
– Você poderia se juntar a nós... Ser imortal... Ser livre de verdade...
O esposo continuou.
– Mas ao invés de entregar nosso filho, tentou mantê-lo escondido! Agora sei por que se acovardou quando partimos há tantos anos! Foi um erro confiá-lo a você!
Grim caiu de joelhos. Doía manter os olhos abertos. O frio o consumia.
– Po-por favor! Eu jamais quis traí-los! Eu ape-penas... Tive medo...
– Não há espaço para medo entre nós! Nunca houve, Grim! Sig será como nós! Quando acordar, ensinarei a ele os verdadeiros valores que você não deve tê-lo ensinado!
– Quanto a você... Garantiremos que nunca possa ser trazido de volta...
Wulf deixou seu filho nos braços de Vessa. Marchou até o antigo amigo. Companheiro de campanhas de outrora. Levou a manopla até a cintura, de onde uma espada longa feita de algum aço muito antigo, mas bem polido, estava embaixada. Desembainhou-a.
Grim não conseguia chorar, pois suas lágrimas congelavam em seus próprios olhos. Doía muito.
A espada foi estocada com violência no abdome. Surgiu pelas costas, ao lado da coluna. O pobre guarda gemia. A lâmina foi guiada para cima, toda torta em zigue-zague, rasgando tudo no caminho. A coluna foi rompida, as costelas estralavam, os pulmões se desmancharam, o coração pareceu explodir, a clavícula estourou e o corpo caiu, parcialmente dividido.
A cada tranco com a espada, Wulf sussurrava para Grimjeff.
– Ela me contou, amigo! Ela me contou da sua traição! Você sabia que estávamos sendo arrastados para uma armadilha, mas sua aposentadoria valia mais! Deixou-nos ir! E ainda quis meu filho, para criar como se fosse o que você perdeu! Amaldiçoado seja, Grimjeff Ifrid! O mundo agradece o fim da sua linhagem!
Enquanto isso, Vessa parecia pronunciar palavras confusas e dedilhar a cabeça do filho. Quando a vingança acabou, o ritual da feiticeira também se encerrou.
– Venha ver, Wulf! Ele vai despertar!

Ele cravou a espada no corpo inerte e trotou para perto de sua mulher, como se para ver um parto. Juntos, encostados cabeça a crânio, sentiram alegria, quando Sigwil abriu os olhos cinzentos e retomou o fôlego, um mero reflexo muscular, desnecessário para os anos que viriam...

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Tempestades de Lendas

Algumas coisas que ainda me fazem ser cativado pelo ser humano são suas Tempestades. Somos cheias delas. Em nossa mente, coração, corpo, espírito ou até mesmo na incompreensível alma, nossas Tempestades nos envolvem sem piedade. Impulsos nervosos (ou algo mais) que surgem vindos do nada e indo para lugar nenhum (até onde sabemos), criadas por um milhão de motivações, mesmo que só possamos reconhecer algumas delas.
Estas Tempestades podem ser simplificadas em descargas elétricas que nos percorrem causando uma diferença de pressão na cabeça, roçando nossa nuca, arrepiando nossos pelos e nos agitando em tremeliques. Contudo, quando vistas com uma lupa menos literal, podem ser Tempestades de ideias, de emoções, de pensamentos, de forças maiores do que nossa compreensão nos permite entender. Todo esse caos que tentamos por em caixinhas de lógica cheias de justificativas para nossas ações, essas Tempestades, compõe uma característica muito interessante do ser humano: Criatividade. Não se limitando apenas a artística, mas ela em todo o seu escopo, seja para pintar um quadro ou para determinar se vale ou não atravessar a rua antes do carro passar. Criar ideias, criar possibilidades, criar cálculos mentais, criar... Somos assustadoramente impressionantes nisso.
Uma das nossas criações mais eternas são as Lendas. De certa forma, incontáveis sinônimos podem ser enxergados através dessa palavra (histórias, estórias, contos, mitos, fábulas etc.), mas optei por ela pela sua carga mística.
Todo ser humano que existiu, existe e existirá criará inúmeras Lendas em seu tempo de vida, mesmo que ele não as enxergue. Seu mero andar por uma cidade enquanto escuta música com fones de ouvido pode ser interessante para alguém e quando essa pessoa compartilha com outra o fato de você estar andando de fones de ouvido, você se torna um personagem em uma Lenda, mas nem você e nem a pessoa tem ciência do que estão construindo juntas.
Eu amo Lendas. Amo mais ainda a forma como elas surgem. Através de Tempestades é óbvio. Já perdi a conta de quantas Lendas já li, assisti ou ouvi (e nunca chegarei perto de conhecer todas que existem). Muitas parecidas. Nenhuma idêntica. Tempestades podem ser parecidas, até mais do que o crível, mas cada pessoa terá sua originalidade, mesmo que mínima.
Amo Tempestades. Amo Lendas. Mas sempre tive certo receio de compartilhar com o mundo as minhas próprias. Acho que já espalhei mais Tempestades de Lendas dos outros do que criei as minhas. Entretanto, um certo grupo de autores e editores da conhecida Editora Jambô, me disse que já estava na hora deu parar de temer o mundo. Quando se ouve isso de alguém com quem se identifica tanto, Tempestades começam a explodir em sua cabeça. "Se foi possível pra eles, é possível pra qualquer um que tente de verdade!" - Minha mente me disse isso.
Agora estou aqui compartilhando minha primeira Tempestade. Uma tentativa de justificar o nome do blog, uma de muitas, mas a minha favorita.
Foi um enorme prazer!
Com certeza, outras Tempestades virão!
- Miguel Beholder