Conto inspirado no pedido de Francine Pardinho, no mundo de Arton (eu amo Arton!). Reza a lenda
que esse conto é baseado em fatos reais.
Quando o assunto é
“alimentos mágicos”, sabe-se que os mundos de fantasias estão repletos deles.
Existem alguns que amaldiçoam, alguns que curam, alguns que nos levam aos céus
e outros que nos arrastam para a condenação – as vezes nem sempre através de
magia, não é mesmo? He! He!
Até mesmo os mais
improváveis dos grãos como o feijão que já se tornou a escada mágica para
alcançar um futuro melhor, nos faz notar como os alimentos místicos permeiam
nossas vidas. Essa é uma lenda do dia em que um pote de feijões mudou a vida de
inúmeras formas de vida – ou só a vida de um gato.
Era aquela clássica manhã
de valag – um dia de descanso como o nosso domingo – em um planeta
medieval-fantástico que gosto de chamar de Arton. Azgher – o sol – nascia
brilhante do horizonte! Não haviam nuvens no céu para conter seus raios sobre o
continente Artoniano. Não é a toa que em dias como esse, cheios de luz, existem
boatos como “Azgher tudo vê”.
Contudo, existia um reino
que não estava bem assim... Ele se chamava Pondsmânia, uma terra de fadas,
magia e criaturas fantásticas, todas governadas por uma nobre rainha conhecida
pelo nome de Thantalla-Dhaedelin, a Rainha das Fadas.
Diferente do resto de
Arton que aproveitava da vinda do sol para darem vida a suas tarefas
cotidianas, as fadas e outras criaturas mágicas de Ponsmânia como ninfas,
dríades, faunos, unicórnios e tudo o mais que você puder imaginar de animais
falantes, estavam escondidos embaixo dos troncos, cavernas e grutas, enfiados
entre moitas, árvores e ninhos. O motivo disso era que a rainha Thantalla
estava de mal humor.
Na terra das fadas,
quando a rainha está de mal humor... Hum... Não queira viver lá. Ao invés de
sol e céu aberto, havia chuva, nuvens negras permeando o céu, relâmpagos
atingindo as árvores e trovões que faziam a terra tremer. No meio daquele caos
aterrorizante, uma ratinha de pelo branquinho cutucou com seu focinho um gato
preto que se escondia ao lado dele na mesma casca de árvore oca.
– Hey! Gato! GATO! – Era
elétrico como só ela.
– Ooooii... – Era apático
como só ele.
– Você sabe porque a
rainha pirou dessa vez? Sabe? Sabe?
– Eu soube que derrubaram
o pote de feijão dela... Sabe? Aquele que ela ganhou jogando xadrez contra
aqueles humanos de ontem que vieram fazer desejos...
– Mas quem foi o maluco
que fez um negócio desses!? Quem!?
– Ahn... Acho que fui...
Eu... Mas foi acidental... Eu acho...
– O QUEEEE!? Você tem que
admitir isso agora! Ela vai matar todos nós!
– Ela não deveria matar
todos só por causa de um pote de feijão...
– Você sabe que a rainha
muda de personalidade igual mudam as estações! Ela está na fase da Criança e as
birras dela destroem o reino! Precisamos fazer alguma coisa!!!
– Tipo o que?
– Hummm... Já sei! Vamos
atrás de feijões pra ela!
– Tá brincando, né?
– Não! E o senhor vem
comigo! Precisa pagar pelo seu crime! A menos que queira ir se desculpar com
ela sem feijão...
– Crime? Não foi um
crime... Não... Não acho seguro ir sem feijão...
E assim o gato e a
ratinha começaram a atravessar as floras mágicas de Pondsmânia em busca dos
feijões dos humanos, afinal a salvação do reino dependia deles. Por vários
dias, eles viajaram, cruzando vilarejos, se enfiando em tocas, abrindo caminho
por paredes velhas e evitando serem notados. Dia após dia procurando algum
feijão.
Um dia, cansados de tanto
viajar – principalmente o gato molenga – decidiram se atirarem em um monte de
feno dentro de um celeiro e dormir.
– Já viajamos tanto que a
rainha já deve ter se acalmado... Esquece essa história...
– Nada disso! Nada de
desistir! Nossos amigos podem estar em perigo! Precisamos do feijão! Do feijão!
Interessado na repetição
da palavra feijão vinda do nada, um cão de guarda atento com a segurança da
fazenda de seus donos decidiu olhar dentro do celeiro. Seus ouvidos não o
enganaram e seu olfato trouxe a certeza de que havia um gato ali dentro.
O gato e a ratinha já
saiam por um buraco na parede quando o cão, muito maior do que os dois,
atravessou a madeira velha do celeiro, investindo em uma caçada furiosa e
barulhenta.
Desesperados, a dupla dinâmica
disparou para a parte da fazenda onde os moradores locais deixavam suas
ferramentas maiores. Enquanto a ratinha desviava de cada forcado, cerca e
escalava com precisão a parede do casarão, o gato pesou demais sobre a forca,
atingindo-se no rosto, se destrambelhou todo na cerca e na escalada, caiu nas
costas do cão que latia alguns metros abaixo, rolando e ficando zonzo.
Se não fosse a ratinha se
atirar no cão para distraí-lo, aquele teria sido o fim do gato. Os dois
voltaram a correr lado a lado com os latidos logo atrás.
– Que tipo de gato é
você!? Pensei que gatos sempre caíssem de pé!
– Do tipo que prefere
ficar na minha árvore! E quem te disse isso com certeza não era um gato!
– Espero que os boatos
sobre as sete vidas de vocês seja verdade, porque você vai precisar!
– Seis! Com certeza perdi
uma lá atrás!
Finalmente, eles
alcançaram o final da fazenda e se envolverem no meio da mata de um bosque
cheio de árvores frutíferas. O cão, obediente que só ele, parou de persegui-los
a partir dali, apenas latindo avisos de “nunca mais voltem”, todo orgulhoso de
si mesmo.
Deitados na grama, em
meio as retomadas de fôlego, o gato gritou:
– CHEGA! Chega disso
tudo! Eu vou ir pedir desculpas pra rainha sem feijão!
– Vai mesmo!? Mesmo,
mesmo!?
– Sim... Você me
salvou... Te devo essa...
– É lógico! Vamos voltar
imediatamente!
O caminho de volta
parecia ainda mais longo e cansativo, mas talvez fosse só a ansiedade do gato
de estar seguro de novo. Apesar dos pesares, tudo corria bem na volta, mas a
última parada de descanso da dupla foi visitada, inesperadamente, por um grupo
de aventureiros que os pegaram desprevenidos.
Supreendentemente, os
viajantes foram carinhosos e acharam a dupla uma fofura. Vestiram eles com
roupinhas engraçadas que a clériga de Lena – uma representante divina da Deusa
da Vida – do grupo sabia costurar e lhes deram comida antes de partirem
novamente. Entre os pedacinhos de carne e frutinhas estava um montinho de
feijão.
Alegres com o resultado
da jornada, o gato e a ratinha retornaram, satisfeitos com o feijão que
entregariam para a rainha. Ao chegarem, o caos continuava o mesmo e Thantalla,
em sua forma de Criança, mantinha o tempo parado no reino, centrado em sua
tempestade de birra e fúria.
Com os rabos entre as
pernas, a dupla foi até aquela belíssima figura divina e real que era a Rainha
das Fadas, interrompendo sua caminhada dramática e esticando para ela a
refeição com feijão.
Quando Thantalla pegou o
potinho de comida nas mãos, nada parecia acontecer. Ela apenas encarava o
feijão como se estivesse analisando-o.
– Me desculpe, minha
rainha... Eu... Eu estava vagando pela cozinha de seu castelo, apenas
procurando um lugar quente para me deitar quando... Esbarrei em seu pote de
feijão e o derrubei... Peço sincero perdão...
E assim, o gato se
prostrou diante de sua governanta.
Olhando para o culpado,
ela sorriu enquanto seu corpo todo foi revestido por uma luz fulgurante que
iluminava todo o reino e o limpava da tempestade. Ela estava mudando de forma. Amadurecendo.
No lugar daquela beleza infantil, uma jovem poderosa e altiva surgiu. A
Guerreira era sua próxima fase de vida.
A nova rainha levantou o
pote de feijão para que todos os seus súditos, curiosos atrás de cada moita,
tronco ou pedra, pudessem ver e então o deixou cair no chão e ser tragado pela
natureza.
O gato se assustou e
sentiu que nem todas as suas vidas, se é que existiam, o salvariam daquela nova
Thantalla.
Contudo, todos os súditos
começaram a rir, incluindo a própria ratinha que correu para os ombros de sua
rainha e se aconchegou em seus cabelos divinos.
– Mas... Mas o que?
O gato ainda não
entendia, mas a ratinha fez questão de explicar.
– Deixe de ser bobo,
senhor gato! Acha mesmo que nossa rainha estava ofendida com a queda do
feijão!? A única coisa que havia ofendido ela era você nem ao menos admitir a
culpa e pedir perdão! Como nossa rainha poderia evoluir se seus súditos nem ao
menos tem coragem de pedi-la perdão!? Você estava querendo enganá-la!
– Espera... Espera... Mas
e a tempestade!?
– Ninguém estava em
perigo seu bobo! Foi tudo combinado pra te enganar no castelo! Você não estava
lá porque fugiu!
Todos gargalhavam e a
ratinha mostrava a língua, mas então a rainha quis falar.
– Gato. Escute-me. – Ela
se inclinou e o afagou com as mãos – Essa lição não é apenas quando você fizer
algo contra mim. Isso vale para todos. Indiferente do mal que você faça e todos
sabemos que podemos causar o mal ao próximo mesmo sem a intenção, nunca, NUNCA,
deixe de pedir perdão e de perdoar. O perdão que nos evolui. Entendeu? Seu
bobo...
E assim ela o cutucou no
focinho com carinho.