Inesperadamente, a primeira proposta de conto de personagem foi com um animal! Amei o desafio! A pessoa pediu para se manter anônima. Segue o conto...
“Ah! O mar... Como eu o amo...
Às vezes me sinto desconfortável em depender do ar para viver! Gostaria de
poder viver embaixo das águas para sempre... Bom! Eu pensava assim! Agora, com
filhos, a gente muda né! Já fazem meses que tudo o que quero é pisar em terra
firme, onde meu garoto espera por mim!”
– Hey, Tom! Tom! Dá pra parar
de falar com a voz na sua cabeça e prestar atenção!
Éde se aproximou do
companheiro e o golpeou de leve na nuca.
– Ai! O que foi Éde? Já disse
que não são vozes! – Tom recuperou o fôlego e continuou a seguir o amigo.
– Eu te conheço de anos,
macho! Sei quando está pensando consigo mesmo! Vai acabar se perdendo do
pessoal e ficando pra trás! – Éde tentava parecer sério, mas seu sorriso
impulsivo estava sempre ali para entregá-lo.
Tom riu, feliz com a companhia
de todo ano.
– Você jamais me deixaria!
Depois da sua mulher, sou quem você mais ama!
Alguém na frente de todos
gritou.
– Estamos nos aproximando da
costa! Preparem-se!
A dupla se encarou e Éde abriu
o bico.
– E lá vamos nós de novo! Será
que elas estarão com muita fome?
– Elas não comem por meses, só
pra nos emboscar no mesmo lugar todo ano! Eu acho que já virou mais esporte do
que necessidade!
Eles riram juntos e se
reagruparam com os demais. Formaram um grande grupo atravessando as águas
gélidas e escuras que refletiam o sol brilhoso. Haviam poucas nuvens no céu e o
vento estava cruel, forte e gelado.
Mais uma vez o grito veio de
alguém na frente de todos.
– Sabem o que fazer! Juntos!
Sempre juntos! Elas não terão chance! Sobe e desce! Sobe e desce! Acompanhem a
maré! Sobe e desce!
Todos começaram a gritar
juntos.
– SOBE E DESCE! SOBE E DESCE!
E então, silêncio. Começaram a
subir e a descer. Todos juntos viraram uma grande força balística quebrando a
água há alguns graus de se congelar.
“Sobe! Desce! Sobe! Desce!
Como isso é cansativo! Estou ficando velho! Todo ano a mesma coisa! Meus
pulmões parecem que vão explodir de tanto esforço!”
– Hey, Tom! – A frase era
interrompida pelo subir e descer. – Hey, Tom!
– Não... É a... Melhor...
Hora!
– Só... Queria... Dizer... Que
você... Está... Lindo! Há! Há!
– Você é... Um... Idiota!
“Só ele mesmo pra fazer piada
instantes antes de pormos nossas vidas em risco! Me pergunto quando os anciões
terão uma ideia melhor de como levarmos comida pra casa!”
E lá estavam elas. Preparadas.
Esperando eles chegarem. Há certa distância da praia, aguardavam ansiosas. Os
olhos negros tentados a comida que vinha de encontro. Já faziam anos que tinham
aprendido sobre o caminho que os pais e mães usavam para trazer comida aos seus
filhos em terra.
Só precisavam penetrar o
grupo. Se conseguissem quebrar a formação poderosa agitando o mar em sua
direção, teriam alimento de sobra. Teriam de ser fortes e não temerem os
impactos que receberiam da formação. Seus adversários tinham coragem o bastante
para atacá-las de frente. Precisavam da mesma coragem para conseguir comida.
Elas eram maiores, mais fortes
e capazes de vencê-los com facilidade, além disso, não tinham razão para
pouparem ninguém. Eram de raças diferentes.
Como um alarme mental,
sentiram que era a hora certa. Mergulharam fundo e esperaram. Cada músculo
tenso. Preparado para o impacto.
“Sobe! Desce! Foco Tom! Falta
pouco! Vão surgir a qualquer momento! Vai ser igual todo ano! Vamos conseguir!
Vai ser um passeio no parque!”
De um lado, silêncio. Do
outro, uma multidão fazendo o mar vibrar violentamente.
O choque.
Elas se esforçavam. Davam
voltas na formação. Entravam de cabeça com toda a força, se chocando com
inúmeros corpos em movimento e sendo repelidas pelo impacto.
Mordidas atingiam os alvos com
violência, sendo combatidas pela força de vontade de não parar.
Tom mal enxergava o caminho a
sua frente. Era apenas uma agitação borbulhenta e barulhenta. Sentiu o cheiro
ferroso atingir-lhe com violência. Sangue. Não sentia dor. Não era ele. Éde
estava a esquerda. Então era de alguém a frente. A vontade de fazer algo era
grande, mas nada seria mais útil para todos do que continuar. Não havia espaço
para individualidade, não havia espaço para dúvida. Eram uma única força e
entidade contra o mundo.
Choque.
Tom foi atingido em seu lado
esquerdo pela cabeça de alguma delas que atacou por baixo. Seu corpo atirado
para a direita em voltas que o faziam considerar vomitar tudo o que tinha no
estômago. Ele não pensava mais. Apenas reagia. Buscou equilíbrio, se concentrou
e tirou esforço de onde não tinha. Subiu e desceu como se sua vida dependesse
disso. E dependia.
Alívio.
Seu peito atingiu a praia.
Seus músculos pareciam que iam se partir. Ficou de pé com muito esforço e um
passo de cada vez, alcançou o enorme grupo que já havia chegado. Uniu-se aos
demais e olhou para a praia.
Temor.
Éde estava sozinho, caído na
areia, onde a água ainda tocava. Uma das caçadoras estava logo atrás. Ambos
davam barrigadas na areia para avançarem. Presa e caçadora. Sem forças para se
levantar. Uma luta desesperadora.
Tom queria fazer algo, mas não
podia. Se fosse ao encontro do amigo. Se arriscasse sua vida.
“Meu filho... Só me sobrou
ele... Não posso...”
Seus pensamentos foram
interrompidos. A criatura, exausta, deitou na areia. Não tinha mais forças.
Desistiu.
Tom correu para ajudar o amigo
a se levantar. Éde ofegava.
– Rapaz... Foi quase!
– Pare de brincar! – Mas nem
Tom segurava o riso de alegria. – Falta muito ainda!
– Affe! É verdade! O que vem
agora mesmo? Ainda tô meio zonzo...
– Subir as montanhas,
atravessar aqueles bichões enormes e encontrar nossos filhotes entre
milhares...
– Cara... Se eles soubessem o
que a gente passa...
Risos.
Juntos, os dois se
uniram a multidão sobrevivente que os esperava. Composta por incontáveis pais e
mães, a marcha seguiu, pois ainda faltava horas, talvez dias, para a jornada
desses pinguins acabar e seus filhos serem alimentados.
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