quarta-feira, 17 de junho de 2020

O DIA EM QUE O FEIJÃO ENTORNOU


Conto inspirado no pedido de Francine Pardinho, no mundo de Arton (eu amo Arton!). Reza a lenda que esse conto é baseado em fatos reais.

Quando o assunto é “alimentos mágicos”, sabe-se que os mundos de fantasias estão repletos deles. Existem alguns que amaldiçoam, alguns que curam, alguns que nos levam aos céus e outros que nos arrastam para a condenação – as vezes nem sempre através de magia, não é mesmo? He! He!
Até mesmo os mais improváveis dos grãos como o feijão que já se tornou a escada mágica para alcançar um futuro melhor, nos faz notar como os alimentos místicos permeiam nossas vidas. Essa é uma lenda do dia em que um pote de feijões mudou a vida de inúmeras formas de vida – ou só a vida de um gato.
Era aquela clássica manhã de valag – um dia de descanso como o nosso domingo – em um planeta medieval-fantástico que gosto de chamar de Arton. Azgher – o sol – nascia brilhante do horizonte! Não haviam nuvens no céu para conter seus raios sobre o continente Artoniano. Não é a toa que em dias como esse, cheios de luz, existem boatos como “Azgher tudo vê”.
Contudo, existia um reino que não estava bem assim... Ele se chamava Pondsmânia, uma terra de fadas, magia e criaturas fantásticas, todas governadas por uma nobre rainha conhecida pelo nome de Thantalla-Dhaedelin, a Rainha das Fadas.
Diferente do resto de Arton que aproveitava da vinda do sol para darem vida a suas tarefas cotidianas, as fadas e outras criaturas mágicas de Ponsmânia como ninfas, dríades, faunos, unicórnios e tudo o mais que você puder imaginar de animais falantes, estavam escondidos embaixo dos troncos, cavernas e grutas, enfiados entre moitas, árvores e ninhos. O motivo disso era que a rainha Thantalla estava de mal humor.
Na terra das fadas, quando a rainha está de mal humor... Hum... Não queira viver lá. Ao invés de sol e céu aberto, havia chuva, nuvens negras permeando o céu, relâmpagos atingindo as árvores e trovões que faziam a terra tremer. No meio daquele caos aterrorizante, uma ratinha de pelo branquinho cutucou com seu focinho um gato preto que se escondia ao lado dele na mesma casca de árvore oca.
– Hey! Gato! GATO! – Era elétrico como só ela.
– Ooooii... – Era apático como só ele.
– Você sabe porque a rainha pirou dessa vez? Sabe? Sabe?
– Eu soube que derrubaram o pote de feijão dela... Sabe? Aquele que ela ganhou jogando xadrez contra aqueles humanos de ontem que vieram fazer desejos...
– Mas quem foi o maluco que fez um negócio desses!? Quem!?
– Ahn... Acho que fui... Eu... Mas foi acidental... Eu acho...
– O QUEEEE!? Você tem que admitir isso agora! Ela vai matar todos nós!
– Ela não deveria matar todos só por causa de um pote de feijão...
– Você sabe que a rainha muda de personalidade igual mudam as estações! Ela está na fase da Criança e as birras dela destroem o reino! Precisamos fazer alguma coisa!!!
– Tipo o que?
– Hummm... Já sei! Vamos atrás de feijões pra ela!
– Tá brincando, né?
– Não! E o senhor vem comigo! Precisa pagar pelo seu crime! A menos que queira ir se desculpar com ela sem feijão...
– Crime? Não foi um crime... Não... Não acho seguro ir sem feijão...
E assim o gato e a ratinha começaram a atravessar as floras mágicas de Pondsmânia em busca dos feijões dos humanos, afinal a salvação do reino dependia deles. Por vários dias, eles viajaram, cruzando vilarejos, se enfiando em tocas, abrindo caminho por paredes velhas e evitando serem notados. Dia após dia procurando algum feijão.
Um dia, cansados de tanto viajar – principalmente o gato molenga – decidiram se atirarem em um monte de feno dentro de um celeiro e dormir.
– Já viajamos tanto que a rainha já deve ter se acalmado... Esquece essa história...
– Nada disso! Nada de desistir! Nossos amigos podem estar em perigo! Precisamos do feijão! Do feijão!
Interessado na repetição da palavra feijão vinda do nada, um cão de guarda atento com a segurança da fazenda de seus donos decidiu olhar dentro do celeiro. Seus ouvidos não o enganaram e seu olfato trouxe a certeza de que havia um gato ali dentro.
O gato e a ratinha já saiam por um buraco na parede quando o cão, muito maior do que os dois, atravessou a madeira velha do celeiro, investindo em uma caçada furiosa e barulhenta.
Desesperados, a dupla dinâmica disparou para a parte da fazenda onde os moradores locais deixavam suas ferramentas maiores. Enquanto a ratinha desviava de cada forcado, cerca e escalava com precisão a parede do casarão, o gato pesou demais sobre a forca, atingindo-se no rosto, se destrambelhou todo na cerca e na escalada, caiu nas costas do cão que latia alguns metros abaixo, rolando e ficando zonzo.
Se não fosse a ratinha se atirar no cão para distraí-lo, aquele teria sido o fim do gato. Os dois voltaram a correr lado a lado com os latidos logo atrás.
– Que tipo de gato é você!? Pensei que gatos sempre caíssem de pé!
– Do tipo que prefere ficar na minha árvore! E quem te disse isso com certeza não era um gato!
– Espero que os boatos sobre as sete vidas de vocês seja verdade, porque você vai precisar!
– Seis! Com certeza perdi uma lá atrás!
Finalmente, eles alcançaram o final da fazenda e se envolverem no meio da mata de um bosque cheio de árvores frutíferas. O cão, obediente que só ele, parou de persegui-los a partir dali, apenas latindo avisos de “nunca mais voltem”, todo orgulhoso de si mesmo.
Deitados na grama, em meio as retomadas de fôlego, o gato gritou:
– CHEGA! Chega disso tudo! Eu vou ir pedir desculpas pra rainha sem feijão!
– Vai mesmo!? Mesmo, mesmo!?
– Sim... Você me salvou... Te devo essa...
– É lógico! Vamos voltar imediatamente!
O caminho de volta parecia ainda mais longo e cansativo, mas talvez fosse só a ansiedade do gato de estar seguro de novo. Apesar dos pesares, tudo corria bem na volta, mas a última parada de descanso da dupla foi visitada, inesperadamente, por um grupo de aventureiros que os pegaram desprevenidos.
Supreendentemente, os viajantes foram carinhosos e acharam a dupla uma fofura. Vestiram eles com roupinhas engraçadas que a clériga de Lena – uma representante divina da Deusa da Vida – do grupo sabia costurar e lhes deram comida antes de partirem novamente. Entre os pedacinhos de carne e frutinhas estava um montinho de feijão.
Alegres com o resultado da jornada, o gato e a ratinha retornaram, satisfeitos com o feijão que entregariam para a rainha. Ao chegarem, o caos continuava o mesmo e Thantalla, em sua forma de Criança, mantinha o tempo parado no reino, centrado em sua tempestade de birra e fúria.
Com os rabos entre as pernas, a dupla foi até aquela belíssima figura divina e real que era a Rainha das Fadas, interrompendo sua caminhada dramática e esticando para ela a refeição com feijão.
Quando Thantalla pegou o potinho de comida nas mãos, nada parecia acontecer. Ela apenas encarava o feijão como se estivesse analisando-o.
– Me desculpe, minha rainha... Eu... Eu estava vagando pela cozinha de seu castelo, apenas procurando um lugar quente para me deitar quando... Esbarrei em seu pote de feijão e o derrubei... Peço sincero perdão...
E assim, o gato se prostrou diante de sua governanta.
Olhando para o culpado, ela sorriu enquanto seu corpo todo foi revestido por uma luz fulgurante que iluminava todo o reino e o limpava da tempestade. Ela estava mudando de forma. Amadurecendo. No lugar daquela beleza infantil, uma jovem poderosa e altiva surgiu. A Guerreira era sua próxima fase de vida.
A nova rainha levantou o pote de feijão para que todos os seus súditos, curiosos atrás de cada moita, tronco ou pedra, pudessem ver e então o deixou cair no chão e ser tragado pela natureza.
O gato se assustou e sentiu que nem todas as suas vidas, se é que existiam, o salvariam daquela nova Thantalla.
Contudo, todos os súditos começaram a rir, incluindo a própria ratinha que correu para os ombros de sua rainha e se aconchegou em seus cabelos divinos.
– Mas... Mas o que?
O gato ainda não entendia, mas a ratinha fez questão de explicar.
– Deixe de ser bobo, senhor gato! Acha mesmo que nossa rainha estava ofendida com a queda do feijão!? A única coisa que havia ofendido ela era você nem ao menos admitir a culpa e pedir perdão! Como nossa rainha poderia evoluir se seus súditos nem ao menos tem coragem de pedi-la perdão!? Você estava querendo enganá-la!
– Espera... Espera... Mas e a tempestade!?
– Ninguém estava em perigo seu bobo! Foi tudo combinado pra te enganar no castelo! Você não estava lá porque fugiu!
Todos gargalhavam e a ratinha mostrava a língua, mas então a rainha quis falar.
– Gato. Escute-me. – Ela se inclinou e o afagou com as mãos – Essa lição não é apenas quando você fizer algo contra mim. Isso vale para todos. Indiferente do mal que você faça e todos sabemos que podemos causar o mal ao próximo mesmo sem a intenção, nunca, NUNCA, deixe de pedir perdão e de perdoar. O perdão que nos evolui. Entendeu? Seu bobo...
E assim ela o cutucou no focinho com carinho.

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