Conto inspirado na proposta de cenário de Ismael Cassimiro. Chega de medieval. Vamos pro Cyberpunk!
...Ok! Gravação já tá
contando... Vamo lá... E ai! Se você está ouvindo isso, muito prazer! Eu sou o
TPK. O que isso significa? Total Party Kills. Quer dizer que eu tenho o costume
de matar todos os que eu enfrento. Foi um título que eu ganhei na arena
Meta-Humana.
Se você sabe do que eu to
falando, meus pêsames, mas se você não sabe, a arena Meta-Humana é o nosso pão
e circo! Essa história de que nosso mundo virtual é a salvação, da Terra estar
inabitável, dos malditos corporativos estarem nos protegendo dos males que
causamos no planeta no passado. Cara! É o maior absurdo! Pra não dizer outra
coisa! Não sei quem está ouvindo então vou pegar leve no palavreado...
Eu não faço ideia de onde
eu vim. Não sei quem são meus pais nem como eu nasci. Só sei o que minha vida virtual
inventou. Aqui no mundo real, ainda estamos tentando descobrir como eles fazem
pra acordarmos, acasalarmos, termos filhos, mas voltarmos pro virtual sem
qualquer lembrança disso. Uma coisa que já sabemos é que as crianças são criadas
em ambientes reais, mas com uma estética toda falsa que simula o que elas vão
viver quando alcançarem os 8 anos.
Aos 8 é quando somos
enfiados na realidade virtual e dali pra frente, somos mantidos no básico.
Gastam conosco só o suficiente pra manter nossos corpos vivos. Nos usam para
repovoar o planeta e depois nos devolvem nas macas cheias de soros e aparelhos
respiratórios com a desculpa de que estão nos protegendo de uma Terra
contaminada e devastada.
Acha que é caro manter
tanta gente nesse estado? Muito mais barato do que você imagina quando descobre
que o mundo todo está livre pra ser explorado por uma população de mais ou
menos 500 milhões de pessoas. Eu li que já fomos mais de 10 bilhões por volta
de 2200 depois da Era Comum. Atualmente, contando os acordados e os dorminhocos
no mundo virtual como você, a população humana tem umas 5 bilhões de pessoas.
Porque estou dando esses dados?
Pra que você saiba que desde
quando as corporações e a política não conseguiram mais conter as revoluções humanitárias
do século 23, guerras civis estouraram em tudo que é merda de metrópole. Mais
da metade da população mundial foi morta e te garanto que pouquíssimos desses
números foram da burguesia. Apenas 10% da população atual tem acesso ao mundo
real, podendo tirar proveito de tudo o que ele tem a oferecer enquanto mantém
os outros 90% imersos no que chamados de RVMH – Realidade Virtual Massiva de Humanos
– ou “RUM”, uma brincadeira com o nome por causa do jeito que fica escrito.
Você deve estar se
perguntando qual a motivação pra guerras civis tão extremas. Eu me perguntava
isso quando me acordaram da RUM. Bom, se você está ouvindo isso e nunca sentiu
que só queria acordar da realidade humana causada pelas nossas estruturas de
governo e empresas financiadoras de meritocracia hipócrita, você está mesmo
vivendo uma vida de realidade virtual. Estão te enganando!
E talvez você até goste!
Não vê problema no seu corpo inerte em injeções de soro desde que sua mente
possa continuar vivendo na fantasia virtual da RUM. Mas se você pensa assim,
minha mensagem não é pra você e eu não vou te acordar dela, pode ficar
tranquilo, você é mais útil pra humanidade do jeito que está!
O quê? Vai dizer que
estou mentindo? Que a burguesia precisa do proletariado? Não existe rico sem
pobre? Me poupe! Eles podem te enfiar em uma realidade virtual com um banco de
dados e servidores capazes de suportar yottabytes de armazenamento! Acha que já
não substituíram cada empregado por milhares de linhas robóticas e inteligências
artificiais!
Aí você diz “ah, mas
alguém teve de construir essas linhas robóticas”. Sim, isso é verdade, e foram
humanos que construíram. Onde eles estão agora? Os que estavam de acordo com os
novos governantes do mundo agora fazem parte deles. Os que foram contra, há! Vamos
só dizer que pintaram paredes de vermelho com eles.
Agora, se você deixar seu
egoísmo sobrevivente de lado e pensar um pouco, vai sentir no fundo do seu
cérebro que nem sempre foi feliz na RUM. Teve algum momento em que as coisas
não fizeram sentido. Algum momento em que você se sentiu vazio. Sem propósito. Eu
me senti assim depois que me tornei campeão na Meta-Humana. Na minha experiência
da RUM, era uma espécie de mundo pra onde iam as consciências mais revoltosas.
É assim que ela funciona. A RUM analisa você desde a infância e vai enviando
sua mente para conviver nos mundos com pessoas parecidas. No meu caso, era uma
espécie de terra cyberpunk, cheia de tecnologia bizarra e espaço para ganhar a
vida na brutalidade. A Meta-Humana era o ápice. Um competidor era considerado
um herói, mesmo que isso significasse matar outros humanos. É claro que eles
não morriam de verdade. A RUM só mandava eles pra outro mundo, mas nós não sabíamos
disso quando competíamos.
Eu lutei muito lá e subi
de grau em grau, escalando as cabeças dos meus oponentes até levantar o troféu
de campeão. As lutas? Dependia da temporada. Iam desde mano a mano em combate
desarmado até o uso de criaturas monstruosas e alienígenas ao nosso favor com
armamento futurista bizarro. Uma vez campeão, alcancei o estado de vazio, de falta
de propósito. É preciso estar assim para ser acordado.
Foi quando conheci os
Iluminados. Um grupo da vida real, pequeno, mas cheio de gente experiente em
enfrentar os humanos, os robôs e as inteligências artificiais dessa nova Terra.
Invadiram o lugar onde eu estava, conseguiram me despertar e levaram meu corpo.
Quando acordei, eles me passaram tudo isso que agora eu divulgo pra vocês!
Esperamos que essa
gravação te ajude a encontrar sua falta de propósito, sua sensação de vazio.
Porque quando ela chegar, e vai chegar, nós estaremos lá para te acordar. Se
não quiser lutar pela sua espécie, que seja, te colocamos pra dormir de novo.
Mas eu duvido. Se você acordar, já é um de nós. A RUM não é o bastante pra
você.
TPK falando do ano de
2528. Não se preocupe. Vamos te tirar desse pesadelo.

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