O forcado subia
e descia. A cada golpe, o farfalhar do feno. A cada investida, o cabo de
madeira se manchava com os pingos de suor. As mãos jovens, mas calejadas do
trabalho no estábulo, refletiam a vida de todos os dezesseis anos de Sigwil.
O garoto fora
amadurecido pelo trabalho braçal, não só na mente, mas no corpo também. Sua
ascendência também o ajudara com uma barba precoce, tão negra quanto seus
cabelos, e olhos acinzentados que pareciam carregar o peso do mundo, contudo,
na prática, só carregava o peso de cada garfada no montante de feno. Uma maior
do que a outra, em uma espécie de desafio pessoal. Os pés, em botas de couro
meio abertas, deslizavam na terra úmida.
O céu estava
escuro, como sempre, nos últimos anos. Era dia, mas o sol fracassava em tentar
fazer seus raios atravessarem a espessa camada de nuvens cor de aço. Lampiões a
óleo iluminavam o estábulo da família Ifrid, fazendo as sombras dos cavalos
bruxulearem contra as paredes de madeira constantemente envernizada, devido ao
aumento das chuvas nas últimas estações.
Grimjeff Ifrid,
o patriarca e último membro da família, abriu sua mãozorra e atingiu as costas
largas e nuas do garoto que pulou num susto.
– Se você se
assustou, é porque está aprontando! – Falou alto, com seu vozerão, para em
seguida desmanchar em risadas largas.
Sig tirou a mão
de Grim de suas costas com um gesto de ombro e ficou em silêncio. Feno subia do
chão, feno descia para dentro do estábulo.
– O que foi
Sig? Não vá me dizer que está assim por causa da conversa de ontem!? – Colocou os
braços largos na cintura e encarou o afilhado com seus pequenos olhos azuis em
meio aquela cabeçorra cheia de barba grisalha.
Era calvo, Sig
não sabia se por opção, pois sempre estava de cabeça careca. Seu corpo era
cheio e tinha pele morena, muito mais escura que a do garoto, manchada por uma
época em que havia sol para castigar os trabalhadores braçais. Também era cheio
de cicatrizes, a minoria da roça, a maioria do seu serviço como guarda.
– To trabalhando
Grim! Não é isso que tenho que fazer? – O feno se movia mais rápido, na mesma
frequência com que a voz de Sigwil se alterava.
– E não tem
nada de errado nisso! O suor do seu trabalho é útil aos cavalos e os cavalos
são úteis a nós! Muito mais do que agitar uma espada por aí! – Sua voz
ribombava, mas parecia passar pelo jovem como uma brisa leve, sem efeito contra
a teimosia.
– Você agitou a
espada por muitos anos! Foi tudo inútil? Tudo pelo que vocês lutaram foi
inútil? – O feno parou de ser agitado. O garoto se virou, inflado de
frustração.
Os cavalos
começaram a respirar mais rápido. Um suor incomum lhes escorria pelas cabeças
equinas.
– Isso é
passado! Já lhe disse! Era outra época! O mundo mudou Sig e eu mudei com ele!
Quer ouvir a verdade? Fomos derrotados! Foi tudo inútil! Guardei as fronteiras
dessa porcaria de reino por mais de dez anos! Nunca ganhei nada por isso! Só me
restava pensar nas vidas que protegia! Hoje, elas estão mortas! Quando
finalmente decidi mudar de vida, todos, inclusive seus pais, me olharam com esse
mesmo olhar! – A fala começou a crescer em berros. Os braços largos
gesticulando violentamente. Os cavalos agitavam as cabeças e relinchavam. – Mas
sabe o que seus pais fizeram quando decidiram seguir as ordens do Rei Aldera?
Que Ifreann o carregue! Eles deixaram você comigo! Eles sabiam onde estavam se
metendo e sabiam que não queriam isso pra você!
Um bafo gélido
começava a sair das respirações pesadas dos dois e dos animais.
– Dane-se o que
eles queriam Grim! Dane-se o que você quer! Estou cansado de ter minha vida
decidida por um casal de mortos e um velho deprimente!
– Não fale
assim dos seus pais! – A mão subiu no ar, mas foi interrompida pela consciência.
– Eu nem me
lembro dos seus rostos! Eu sou filho do esterco que você me fez carregar todos
esses anos! – O forcado foi elevado e mirou Grim na altura do peito.
As hastes de
ferro da ferramenta estavam esbranquiçadas. Os pelos dos dois eriçados. Um dos
cavalos deu um coice na parede de madeira do seu cercado, tirando a mente dos
dois da briga.
Sig, que
conseguia ver o céu por detrás do padrasto, franziu o cenho.
– Neve? –
Pensou em voz alta.
Grimjeff se
virou, sem entender o que acontecia e ao ver a neve caindo em pequeninos flocos,
cobrindo a terra molhada que ficava cada vez mais esbranquiçada, tremeu.
– Magia... –
Quase sussurrou.
– O que?
– Magia Sig! É
magia! Pra dentro da casa! Agora!
A magia havia
sumido do reino nos últimos anos. Os últimos magos da corte do Rei Aldera II
haviam exterminado os feiticeiros, conjuradores por instinto, apenas para serem
exterminados pela própria Igreja Alderana anos mais tarde. Restando apenas os
conjuradores divinos do reino, Grimjeff sabia que aquele congelamento arcano da
região significava a presença de algum mago ou feiticeiro externo.
Os dois
correram a paços pesados de lama, adentraram a porta do casebre, todo em
madeira envernizada, simples, mas bem cuidado para ser resistente.
– Para o porão
garoto! Para o porão! – Ele falava tentando não gritar.
Sig abriu a
portinhola abaixo de um tapete de pele de urso enquanto Grim apagava as
lanternas de dentro da casa. Logo, os dois estavam escondidos abaixo do
assoalho. Uma pena o guarda não ter a mesma esperteza em apagar as lanternas do
estábulo.
Não demorou
muito e ouviram cascos, em galope lento, já bem próximos da casa. Os dois se
questionavam como não ouviram os cavalos se aproximando, mas apenas em suas
mentes. Não ousavam emitir um único ruído desnecessário. Já haviam feito aquilo
outras vezes, para escapar dos devotos da Igreja Alderana.
Uma voz ecoou
pela casa, masculina, altiva, fazendo a espinha de Grimjeff tremer como se
alguém a substituísse por blocos de gelo.
– Grim! Grim!
Você está ai?
O guarda não
conseguiu manter o silêncio. Sua boca pendeu em um nome, como se fosse uma
espécie de palavra sagrada sendo sussurrada.
– Wulfwil...
Sigwil sabia
que este era o nome do pai que nunca conheceu. Congelou. Sua mente foi engolida
por um turbilhão de perguntas que exigiam serem respondidas imediatamente.
Ficou de pé em meio a escuridão do porão e começou a procurar a escada.
O padrasto
ouviu os passos do afilhado e com sua visão treinada, procurou-o no escuro, o
engolfou em um abraço de urso e tapou sua boca. O jovem se debatia enquanto a
voz sobre o assoalho continuava.
– Grim! Eu sei
que está aí! Eu quero meu filho de volta! Eu voltei, amigo! Porque se esconde?
Sig mordeu a
mão que tapava sua boca, conseguiu uma brecha, um instante de fôlego e gritou:
– Aqui embaixo,
pai! – Lágrimas lhe escorriam dos olhos. Era inacreditável.
A voz respondeu.
– Sig! É você?
Não se preocupe filho! Eu vou buscá-lo! – Confiante. Sem titubear ou demonstrar
abalo.
Grimjeff queria
espancar o garoto ali mesmo. O terror que sentia era inexplicável. Era
impossível. Como ele poderia estar vivo? Como ele poderia ter sobrevivido? Se o
tivesse, jamais estaria atrás do filho. Provavelmente estaria junto da esposa,
desafiando legiões de demônios ou bruxas, buscando dar um fim a maldição que
recaiu sobre o mundo conhecido nos últimos anos.
A porta do
porão se abriu. Nenhuma luz veio. Apenas uma brisa gélida que incomodava a
garganta e as narinas de quem respirava.
Sig estava
desmontado, já não tendo mais forças para enfrentar o agarrão de Grim, nem
fôlego em meio ao choro incompreensível.
O dono da casa
olhava para o breu. Ouvia os passos de alguém descendo. Enxergava apenas uma
silhueta. Mesma altura. Mesmos ombros largos. Mesmo passo lento e confiante.
Não podia ser verdade. Mas era. Sentia que era.
Soltou o garoto
que desabou no chão e começou a se arrastar para o pai em meio a escuridão.
A silhueta se
abaixou. Parecia de joelhos. Tomou o filho nos braços e deitou-o a sua frente.
Levou as duas mãos ao pescoço de Sigwil e apertou firme, com sobriedade o
bastante para impedir o ar de passar sem quebrar nenhum osso.
Grimjeff Ifrid
quebrou. Era Wulfwil matando o filho que nunca vira crescer. Desistiu de tudo.
Se levantou e passou a correr em direção a saída secreta que levava para o
estábulo. De lá, pegaria um cavalo e cavalgaria até a cidade mais próxima,
buscaria refugio e beberia até se esquecer de tudo.
Um bom plano,
que nunca se concretizou.
Quando surgiu
em meio a neve e a lama, através de um alçapão dentro do estábulo, viu todos os
cavalos congelados. Inertes em posições de relincho ou coice. O frio o engoliu
a ponto de sentir sua pele querendo se contrair. Abraçou o próprio corpo. Ouviu
outra voz e se virou impulsivamente.
– Grim... Há
quanto tempo... – Era feminina. Ao mesmo tempo doce e amarga. Não precisava ver
quem era a dona da voz. Sabia que a única mulher que o deixava tão inseguro era
a esposa de Wulf. Ainda assim, olhou.
Vessa era a
fonte do frio. Suas mãos emitindo feitiçaria gélida ao lado do corpo. Suas
curvas cobertas por robes de couro justo com frestas para mobilidade. Seu rosto
oculto pelo capuz. Havia algo de errado.
– Ves-Vessa!
Co-como? Co-como? – Era todo tremor e gaguejo.
Ela levou as
mãos ossudas, quase sem pele e azuis de gelo, ao capuz e o tirou. Seu rosto
ainda era visível, ainda era belo, mantido pela feitiçaria, mas toda a pele era
levemente azulada, assim como os olhos. Suas sobrancelhas eram brancas assim
como o cabelo preso em um coque. Das brechas expostas da roupa, via-se a pele
azul ou ossos protuberantes. Os lábios sem vida se abriram, mostrando, através
da arcada dentária, um interior oco e escuro.
– Encontramos o
lado certo desta guerra, Grim... Fomos traídos... E estou feliz por isso...
Agora vejo... Quem são nossos verdadeiros inimigos... – Ela se aproximava,
dele, gesticulando com calma, um passo de cada vez.
– O-o quê vocês
encontraram!? O que se to-tornaram!?
Pelo outro lado
do estábulo, Wulfwil surgiu carregando Sigwil morto em seus braços. Era todo
armadura, das grevas das botas até as largas ombreiras. Nenhum brasão ou
símbolo. O rosto era irreconhecível, pois não tinha nada além de um crânio
humano com cicatrizes. Ainda assim, exalava alguma espécie de aura que fazia
Grim reconhecê-lo.
– Nós nos
tornamos imortais! Nos tornamos senhores de nossa própria existência! Ela fez
por nós, em um dia, o que Aldera nos prometeu por anos! Finalmente temos a
chance de purificar esse mundo do verdadeiro mal que o acomete!
Enquanto
falava, Wulf caminhou até o lado da esposa. Ao final de suas palavras, levou
sua mandíbula até o rosto de Vessa que o beijou. Ela então acariciou a cabeça
do filho e voltou a olhar para o guarda que estava estático, pelo frio e pelo
medo.
– Você poderia
se juntar a nós... Ser imortal... Ser livre de verdade...
O esposo
continuou.
– Mas ao invés
de entregar nosso filho, tentou mantê-lo escondido! Agora sei por que se
acovardou quando partimos há tantos anos! Foi um erro confiá-lo a você!
Grim caiu de
joelhos. Doía manter os olhos abertos. O frio o consumia.
– Po-por favor!
Eu jamais quis traí-los! Eu ape-penas... Tive medo...
– Não há espaço
para medo entre nós! Nunca houve, Grim! Sig será como nós! Quando acordar,
ensinarei a ele os verdadeiros valores que você não deve tê-lo ensinado!
– Quanto a
você... Garantiremos que nunca possa ser trazido de volta...
Wulf deixou seu
filho nos braços de Vessa. Marchou até o antigo amigo. Companheiro de campanhas
de outrora. Levou a manopla até a cintura, de onde uma espada longa feita de
algum aço muito antigo, mas bem polido, estava embaixada. Desembainhou-a.
Grim não conseguia
chorar, pois suas lágrimas congelavam em seus próprios olhos. Doía muito.
A espada foi
estocada com violência no abdome. Surgiu pelas costas, ao lado da coluna. O
pobre guarda gemia. A lâmina foi guiada para cima, toda torta em zigue-zague,
rasgando tudo no caminho. A coluna foi rompida, as costelas estralavam, os
pulmões se desmancharam, o coração pareceu explodir, a clavícula estourou e o
corpo caiu, parcialmente dividido.
A cada tranco
com a espada, Wulf sussurrava para Grimjeff.
– Ela me
contou, amigo! Ela me contou da sua traição! Você sabia que estávamos sendo
arrastados para uma armadilha, mas sua aposentadoria valia mais! Deixou-nos ir!
E ainda quis meu filho, para criar como se fosse o que você perdeu! Amaldiçoado
seja, Grimjeff Ifrid! O mundo agradece o fim da sua linhagem!
Enquanto isso,
Vessa parecia pronunciar palavras confusas e dedilhar a cabeça do filho. Quando
a vingança acabou, o ritual da feiticeira também se encerrou.
– Venha ver,
Wulf! Ele vai despertar!
Ele cravou a
espada no corpo inerte e trotou para perto de sua mulher, como se para ver um
parto. Juntos, encostados cabeça a crânio, sentiram alegria, quando Sigwil
abriu os olhos cinzentos e retomou o fôlego, um mero reflexo muscular,
desnecessário para os anos que viriam...