Conto inspirado pela proposta do
podcast Mundo Freak Confidencial, episódio: 305 - Os Experimentos do Projeto
Montauk.
Desde que iniciei minha carreira na
campo da astronáutica, jamais me imaginei na posição em que me encontro. A
visão heróica do meu cargo sempre foi uma máscara que, por anos, testemunhei e
usufrui.
Eu mesmo era inocente quanto a tudo
isso. Desde pequeno acompanhei incontáveis lançamentos, li revistas e pesquisei
artigos. Mesmo sabendo de todos os riscos, homens e mulheres, parcialmente ou
tão ensandecidos quanto me encontro agora escrevendo estas palavras em busca de
dar alguma razão a minha existência, estavam dispostos a pôr suas vidas e a
sanidade de todos os que os amam em risco, em troca de algum avanço no que
conhecemos por ciência. Em troca do título de herói da humanidade.
Desde meu período no exército até as
missões de piloto de teste, me considerava abençoado ou sortudo. Chame do que
quiser. Já não importa mais o que essas palavras significam. Eu não era o mais
inteligente, não era o mais capaz e nem de longe o mais adaptado a todas as
ameaças da viagem espacial.
Mesmo assim minhas notas eram as melhores,
meus testes físicos superavam os de qualquer outro, as provas psico-sociais não
ofereciam qualquer desafio. Eu questionava os cientistas do projeto Montauk,
horas preocupado com a boataria sobre a manipulação dos testes, horas orgulhoso
e me gabando da minha origem brasileira.
Eles me respondiam que era um grande
feito, que eu deveria mesmo me orgulhar do que estava fazendo em nome da
humanidade, diziam que os boatos dos outros astronautas sobre a manipulação era
nada mais do que inveja, um sentimento esperado, já que apenas os melhores
realmente deixam o planeta para serem heróis.
Eu acreditei…
Eu não vou ficar discorrendo sobre o
projeto. Manterei a cláusula de confidencialidade do meu contrato, mas não por
devoção e sim porque, depois do que testemunhei, o reconheço como um mal
necessário. Eu não sei quem, ou o que, lerá este pedaço de couro. Não quero ser
o responsável por revelar a ELES o que pode ser nossa maior ferramenta contra o
que encontrei.
Fui o que os autores de exploração,
seja nos artigos sobre Colombo ou nas obras de ficção de Verne, chamam de
pioneiro. Me garantiram que a máquina me levaria até Marte em segurança, junto
de equipamento o bastante para sobreviver por uma semana. Até o fim desse
período eles enviariam outros desafortunados como eu com mais e mais
quinquilharias para ocuparmos o planeta.
Não mentiram sobre a máquina. Como
disse, eu não era o mais inteligente e não fazia ideia de como ela funcionava -
ainda não faço - mas era grande o bastante para ocupar uma extensão subterrânea
de quilômetros, cheias de cabos, luzes e tubos. Me posicionei no centro assim
como orientava o treinamento, paramentado com o que tinham de melhor em termos
de traje e ferramentas portáteis. Você deve estar se perguntando com qual razão
eu me colocaria dentro de uma situação tão obscura e apavorante, mas como eu
havia dito, qualquer um que passe pelas provas de astronáutica e não desista,
tem uma sanidade questionável. O discurso de heroísmo e humanidade só serviam
para não enxergarmos nossa própria loucura.
Minutos depois, me encontrava sozinho.
Uma única forma de vida pensante em uma escala de distância compreensível por
poucas mentes humanas. A terra, vermelha como me ensinaram na escola, subia e
descia em dunas, planaltos e depressões por todo o horizonte.
Meu traje entrou em ação dando diversos
alertas sobre a ausência de oxigênio, presença de gases diversos, temperatura,
solo, gravidade etc. me informando que a partir daquele período eu tinha sete
dias de vida. Eu acabara de receber uma clara condenação. Um prazo de
existência que agora, se aproxima do fim…
Mas nesse passado tão próximo, eu
estava confiante de que viriam outros. De que eu seria salvo por outros heróis
e juntos, todos comemoraríamos nossa conquista. Eu não suspeitava de nada. Eu
não questionada nada. Assim como orientava o treinamento.
Haviam se passado três dias -
informados pelo relógio do traje - que poderiam ser resumidos em andar, comer,
beber e cagar. O cenário era uma representação repetitiva e exaustiva de pó com
padrões de noite e dia que, mesmo semelhantes a Terra, perturbavam meus
costumes de forma sutil e venenosa. Minha comunicação com o projeto era zero,
pois eles disseram que a máquina que me trouxe para Marte me impedia de portar
qualquer equipamento que transmitisse ondas. Contudo, uma vez em Marte, eu
poderia receber sinais. Nunca entraram em contato comigo. Só ontem eu descobri
que mentiram. Meu traje estavam transmitindo imagens de aúdio e vídeo esse
tempo todo.
No quarto dia foi quando encontrei
ELES, ou sendo mais claro, o que deixaram para ser encontrado. O local onde
estou agora não era para ser discreto nem mesmo oculto. Mesmo assim, surgiu
para mim como que do nada. Me questiono até agora como nossas inteligências
terrestres não sabiam deste lugar, ou se sabiam, como mantiveram algo assim
oculto por tanto tempo.
A cidade não é nada como já foi
representada em filmes ou descrita nos livros sobre marcianos - nem mesmo
poderia, pois jamais seríamos capazes de imaginar algo assim. Também não
acredito que seja de algum povo marciano como já vimos na ficção. Suas
estruturas são grotescamente gigantes, maiores do que qualquer coisa que já vi.
Algumas portas ou arcos que levam para dentro de prédios parecem feitas para
seres maiores do que o próprio Cristo Redentor.
As formas geométricas não fazem
qualquer sentido arquitetônico. Não são móveis ou místicas, mas se sustentam em
posições e curvas que jamais seriam possíveis na Terra. Em busca de não usar
expressões como magia, prefiro culpar as diferenças gravitacionais e eletromagnéticas
que envolvem o planeta. Outra característica interessante das estruturas se
trata da ausência de cor. Tudo parece muito semelhante ao solo, sem marcas de
fragmentação nas paredes como de tijolos ou rachaduras. Em resumo, parecem que
foram moldadas a partir do próprio solo.
Movido por uma curiosidade advinda do
tédio inconcebível, decidi explorar a cidadela. Vaguei por horas e horas, não
compreendendo uma coisa sequer. Até mesmo agora, não sei diferenciar o que é
útil, o que é estético, o que é tecnológico ou o que é arcaico.
Ontem, sexto dia, finalmente encontrei
um cômodo que me trouxe conforto. Apesar do tamanho grotesco, suas paredes eram
forradas com algo que posso assemelhar a estantes divididas em prateleiras de
muitos tamanhos com uma quantidade incontável de objetos diversos permeando
cada metro. Imagino que mesmo dotado da imortalidade, um dom que antes
considerava mera fantasia religiosa, jamais conseguiria analisar tudo.
Contudo, somente hoje entendi do que se
trata este salão. Depois de ver, tocar, mexer, testemunhar coisas brilharem,
flutuarem e até explodirem, tão entretido quanto uma criança boba cativada por
brinquedos dos quais ela mal compreende suas verdadeiras funções, um dos
objetos, do tamanho de um caixão, com bordas maciças de algum metal reluzente,
emitiu uma frase em grunhidos e glossolalia que eram tão compreensíveis quanto
tentar entender um cão por meros latidos. Naquele instante, toda a minha
fascinação e curiosidade se deformou em horror pleno e abjeto.
Uma frase que já havia visto em
incontáveis obras de ficção me engoliu a mente: “Não estamos sozinhos no
universo”.
É claro que não estamos. Apenas o mais
ignóbil ser pensante é capaz de acreditar piamente que nenhuma outra forma de
vida em quaisquer das infinitas dimensões e galáxias existe. Mesmo os
religiosos creem em outras formas de vida que permeiam nosso dia-a-dia. Eu
mesmo sempre fiz piada com meu irmão muito supersticioso sobre espíritos o
verem enquanto cagava ou tomava banho.
Contudo, para o meu ser, para a minha
massa encefálica cheia de curtos elétricos pela falta gradual de oxigênio, a
frase clichê já não era mais tão simples de aceitar. Não se trata de uma
informação matemática, de uma dedução baseada em evidências, de fé… Nós não
estamos sozinhos no universo. Não estamos sozinho nem em nosso próprio sistema
solar.
Nos meus últimos caminhares por esse
museu universal que agora, ironicamente, se torna minha tumba, foi quando
encontrei aquilo que me motivou a registrar minha viagem até aqui. Em meio a
imensidão de itens que me fazem sentir menor do que o prematuro niilismo de
Heinrich, encontrei uma caixa. Um objeto pequeno, não maior do que uma gaveta
de escrivaninha, que jurei ser de origem humana. Abri com uma de minhas
ferramentas e removi o tecido de couro inacreditavelmente inteiro, de sobre uma
pedra.
As portas da morte deixo meu último
registro para o projeto e para o universo, escrito nesse pedaço de couro
enquanto observo, sentindo algo que nós humanos só sabemos descrever como o
aperto no coração, a pedra. Um minúsculo cascalho frente ao museu, com uma
pintura rústica de povos sul-americanos do segundo ou terceiro século representando
um homem prostrado diante de uma cobra gigante.
O que isso significa? Não sei. Não sou
dos mais inteligentes…