segunda-feira, 6 de julho de 2020

O MUSEU DO UNIVERSO


Conto inspirado pela proposta do podcast Mundo Freak Confidencial, episódio: 305 - Os Experimentos do Projeto Montauk.



Desde que iniciei minha carreira na campo da astronáutica, jamais me imaginei na posição em que me encontro. A visão heróica do meu cargo sempre foi uma máscara que, por anos, testemunhei e usufrui.
Eu mesmo era inocente quanto a tudo isso. Desde pequeno acompanhei incontáveis lançamentos, li revistas e pesquisei artigos. Mesmo sabendo de todos os riscos, homens e mulheres, parcialmente ou tão ensandecidos quanto me encontro agora escrevendo estas palavras em busca de dar alguma razão a minha existência, estavam dispostos a pôr suas vidas e a sanidade de todos os que os amam em risco, em troca de algum avanço no que conhecemos por ciência. Em troca do título de herói da humanidade.
Desde meu período no exército até as missões de piloto de teste, me considerava abençoado ou sortudo. Chame do que quiser. Já não importa mais o que essas palavras significam. Eu não era o mais inteligente, não era o mais capaz e nem de longe o mais adaptado a todas as ameaças da viagem espacial.
Mesmo assim minhas notas eram as melhores, meus testes físicos superavam os de qualquer outro, as provas psico-sociais não ofereciam qualquer desafio. Eu questionava os cientistas do projeto Montauk, horas preocupado com a boataria sobre a manipulação dos testes, horas orgulhoso e me gabando da minha origem brasileira.
Eles me respondiam que era um grande feito, que eu deveria mesmo me orgulhar do que estava fazendo em nome da humanidade, diziam que os boatos dos outros astronautas sobre a manipulação era nada mais do que inveja, um sentimento esperado, já que apenas os melhores realmente deixam o planeta para serem heróis.
Eu acreditei…
Eu não vou ficar discorrendo sobre o projeto. Manterei a cláusula de confidencialidade do meu contrato, mas não por devoção e sim porque, depois do que testemunhei, o reconheço como um mal necessário. Eu não sei quem, ou o que, lerá este pedaço de couro. Não quero ser o responsável por revelar a ELES o que pode ser nossa maior ferramenta contra o que encontrei.
Fui o que os autores de exploração, seja nos artigos sobre Colombo ou nas obras de ficção de Verne, chamam de pioneiro. Me garantiram que a máquina me levaria até Marte em segurança, junto de equipamento o bastante para sobreviver por uma semana. Até o fim desse período eles enviariam outros desafortunados como eu com mais e mais quinquilharias para ocuparmos o planeta.
Não mentiram sobre a máquina. Como disse, eu não era o mais inteligente e não fazia ideia de como ela funcionava - ainda não faço - mas era grande o bastante para ocupar uma extensão subterrânea de quilômetros, cheias de cabos, luzes e tubos. Me posicionei no centro assim como orientava o treinamento, paramentado com o que tinham de melhor em termos de traje e ferramentas portáteis. Você deve estar se perguntando com qual razão eu me colocaria dentro de uma situação tão obscura e apavorante, mas como eu havia dito, qualquer um que passe pelas provas de astronáutica e não desista, tem uma sanidade questionável. O discurso de heroísmo e humanidade só serviam para não enxergarmos nossa própria loucura.
Minutos depois, me encontrava sozinho. Uma única forma de vida pensante em uma escala de distância compreensível por poucas mentes humanas. A terra, vermelha como me ensinaram na escola, subia e descia em dunas, planaltos e depressões por todo o horizonte.
Meu traje entrou em ação dando diversos alertas sobre a ausência de oxigênio, presença de gases diversos, temperatura, solo, gravidade etc. me informando que a partir daquele período eu tinha sete dias de vida. Eu acabara de receber uma clara condenação. Um prazo de existência que agora, se aproxima do fim…
Mas nesse passado tão próximo, eu estava confiante de que viriam outros. De que eu seria salvo por outros heróis e juntos, todos comemoraríamos nossa conquista. Eu não suspeitava de nada. Eu não questionada nada. Assim como orientava o treinamento.
Haviam se passado três dias - informados pelo relógio do traje - que poderiam ser resumidos em andar, comer, beber e cagar. O cenário era uma representação repetitiva e exaustiva de pó com padrões de noite e dia que, mesmo semelhantes a Terra, perturbavam meus costumes de forma sutil e venenosa. Minha comunicação com o projeto era zero, pois eles disseram que a máquina que me trouxe para Marte me impedia de portar qualquer equipamento que transmitisse ondas. Contudo, uma vez em Marte, eu poderia receber sinais. Nunca entraram em contato comigo. Só ontem eu descobri que mentiram. Meu traje estavam transmitindo imagens de aúdio e vídeo esse tempo todo.
No quarto dia foi quando encontrei ELES, ou sendo mais claro, o que deixaram para ser encontrado. O local onde estou agora não era para ser discreto nem mesmo oculto. Mesmo assim, surgiu para mim como que do nada. Me questiono até agora como nossas inteligências terrestres não sabiam deste lugar, ou se sabiam, como mantiveram algo assim oculto por tanto tempo.
A cidade não é nada como já foi representada em filmes ou descrita nos livros sobre marcianos - nem mesmo poderia, pois jamais seríamos capazes de imaginar algo assim. Também não acredito que seja de algum povo marciano como já vimos na ficção. Suas estruturas são grotescamente gigantes, maiores do que qualquer coisa que já vi. Algumas portas ou arcos que levam para dentro de prédios parecem feitas para seres maiores do que o próprio Cristo Redentor.
As formas geométricas não fazem qualquer sentido arquitetônico. Não são móveis ou místicas, mas se sustentam em posições e curvas que jamais seriam possíveis na Terra. Em busca de não usar expressões como magia, prefiro culpar as diferenças gravitacionais e eletromagnéticas que envolvem o planeta. Outra característica interessante das estruturas se trata da ausência de cor. Tudo parece muito semelhante ao solo, sem marcas de fragmentação nas paredes como de tijolos ou rachaduras. Em resumo, parecem que foram moldadas a partir do próprio solo.
Movido por uma curiosidade advinda do tédio inconcebível, decidi explorar a cidadela. Vaguei por horas e horas, não compreendendo uma coisa sequer. Até mesmo agora, não sei diferenciar o que é útil, o que é estético, o que é tecnológico ou o que é arcaico.
Ontem, sexto dia, finalmente encontrei um cômodo que me trouxe conforto. Apesar do tamanho grotesco, suas paredes eram forradas com algo que posso assemelhar a estantes divididas em prateleiras de muitos tamanhos com uma quantidade incontável de objetos diversos permeando cada metro. Imagino que mesmo dotado da imortalidade, um dom que antes considerava mera fantasia religiosa, jamais conseguiria analisar tudo.
Contudo, somente hoje entendi do que se trata este salão. Depois de ver, tocar, mexer, testemunhar coisas brilharem, flutuarem e até explodirem, tão entretido quanto uma criança boba cativada por brinquedos dos quais ela mal compreende suas verdadeiras funções, um dos objetos, do tamanho de um caixão, com bordas maciças de algum metal reluzente, emitiu uma frase em grunhidos e glossolalia que eram tão compreensíveis quanto tentar entender um cão por meros latidos. Naquele instante, toda a minha fascinação e curiosidade se deformou em horror pleno e abjeto.
Uma frase que já havia visto em incontáveis obras de ficção me engoliu a mente: “Não estamos sozinhos no universo”.
É claro que não estamos. Apenas o mais ignóbil ser pensante é capaz de acreditar piamente que nenhuma outra forma de vida em quaisquer das infinitas dimensões e galáxias existe. Mesmo os religiosos creem em outras formas de vida que permeiam nosso dia-a-dia. Eu mesmo sempre fiz piada com meu irmão muito supersticioso sobre espíritos o verem enquanto cagava ou tomava banho.
Contudo, para o meu ser, para a minha massa encefálica cheia de curtos elétricos pela falta gradual de oxigênio, a frase clichê já não era mais tão simples de aceitar. Não se trata de uma informação matemática, de uma dedução baseada em evidências, de fé… Nós não estamos sozinhos no universo. Não estamos sozinho nem em nosso próprio sistema solar.
Nos meus últimos caminhares por esse museu universal que agora, ironicamente, se torna minha tumba, foi quando encontrei aquilo que me motivou a registrar minha viagem até aqui. Em meio a imensidão de itens que me fazem sentir menor do que o prematuro niilismo de Heinrich, encontrei uma caixa. Um objeto pequeno, não maior do que uma gaveta de escrivaninha, que jurei ser de origem humana. Abri com uma de minhas ferramentas e removi o tecido de couro inacreditavelmente inteiro, de sobre uma pedra.
As portas da morte deixo meu último registro para o projeto e para o universo, escrito nesse pedaço de couro enquanto observo, sentindo algo que nós humanos só sabemos descrever como o aperto no coração, a pedra. Um minúsculo cascalho frente ao museu, com uma pintura rústica de povos sul-americanos do segundo ou terceiro século representando um homem prostrado diante de uma cobra gigante.
O que isso significa? Não sei. Não sou dos mais inteligentes…

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