terça-feira, 16 de junho de 2020

UM BEIJO DE INSANIDADE


Conto inspirado em Ancalime Menda, aggelus (meio-celestial) paladina de Valkaria (deusa de Arton), criada por Luis Fernando Guazzelli. Reza a lenda que esse conto é baseado em fatos reais.

Todos já ouvimos sobre as teorias da existência de múltiplos universos. O Mundo de Arton, com toda certeza, sofre desse evento. Os mesmos acontecimentos passam por incontáveis repetições vividas por infinitos humanoides – ou não – causando uma nova cadeia de fatos que faz de cada universo, cada realidade, únicos. Quem nunca ouviu frases que, resumindo, dizem que os personagens dão vida a história e não o contrário?
Se você conhece o Mundo de Arton – ou não – saiba que houve um dia em que dois gigantescos titãs digladiaram, um pelo poderoso vilão, Mestre Arsenal, chamado Kishin e outro, pela sobrevivência de muitos inocentes, chamado Coridrian. Esse fatídico dia se repetiu em incontáveis universos, com esses colossais golens mágicos, habitados por incontáveis criaturas fazendo suas manutenções constantes e protegendo-os de invasões, se enfrentando, fazendo desta uma batalha épica vivida em muitas paisagens diferentes de Arton.
Contudo... Houve um dia, em uma dessas realidades, em que diante dos dois colossos trocando golpes devastadores, diante de um visitante inesperado e diante de exércitos do Mestre Arsenal, lutando contra uma armada de heróis de Arton inteira, algo inesperado aconteceu. Um beijo... Talvez o beijo mais improvável e insano de todos.
Um grupo de aventureiros, talvez famosos, talvez não, cumpria uma difícil tarefa em uma jornada conhecida como o Desafio dos Deuses. Estavam incumbidos de salvar uma humanoide que seria sacrificada em nome de uma ameaça conhecida em Arton como a Tormenta, mas que também era uma ameaça em muitas realidades e tinha muitos nomes diferentes. Para concluírem esse resgate, esse grupo diverso teve de ultrapassar incontáveis desafios, viajando através do tempo, para locais e épocas onde eles seriam necessários.
Em um determinado momento, sua jornada os trouxe para o meio desta batalha colossal quando esta ainda acontecia nas Montanhas Sanguinárias, no leste de Arton. Em meio as incontáveis magias sendo conjuradas alterando o clima, a temperatura e a energia a cada instante, uma infinidade de heróis e vilões cruzando o céu e a terra para lutarem por suas causas e principalmente, em meio aos dois colossos disparando raios capazes de devastar montanhas e dando socos capazes de esmagar castelos, os cumpridores do Desafio dos Deuses precisavam lutar para alcançar o Mestre Arsenal.
Eles evitaram como podiam a guerra a céu aberto, alcançaram as ferragens do gigantesco Kishin e invadiram o golem mágico. Dentro dele, precisaram derrotar os guardas, adoradores do poderoso Mestre Arsenal, superar as armadilhas que tentavam explodi-los, congela-los ou esmaga-los, isso sem considerar os improváveis rompantes na carapaça do colosso criadas pelos golpes severos do Coridrian, abrindo abismos ou esmagando paredes entre um corredor e outro.
As coisas já pareciam bem ruins, mas como eu disse, existem múltiplas realidades e nesta, a Tormenta, seja por planejamento ou por mero acaso, interviu. O temido Lorde da Tormenta das Montanhas Sanguinárias, Urazyel, surgiu no horizonte.
Descrevê-lo é como tentar retratar um som. Poderia fazê-lo por páginas e páginas, mas o horror jamais seria pleno. Ameaças cósmicas costumam ser assim. Limitando sua aparência apenas ao que esta realidade Artoniana consegue suportar, Urazyel seria como uma gigantesca cidadela, mas mais viva do que qualquer outra, pois além de seus moradores, criaturas vermelhas e grotescas semelhantes a insetos de muitos tamanhos e formas, ele também é um ser por si só, com incontáveis braços, pernas e tentáculos feitos da mesma matéria vermelha, pegajosa, ácida e quitinosa que suas crias residentes. Cada muro, cada casa, cada poço e cada árvore que compunha a cidadela, o corpo de Urazyel, era como uma paródia macabra da realidade Artoniana. Os muros feitos de corpos, as casas feitas de ossos, os poços cheios de sangue e membros e as árvores como mãos gigantes e retorcidas.
Por onde passava, Urazyel vomitava por seus portões semelhantes a bocarras, hordas e hordas de crias da Tormenta. Seus braços, pés e tentáculos varrendo o campo de batalha, trazendo incontáveis mortes e deixando tudo o que era natural nas Montanhas Sanguinárias semelhantes a sua própria forma macabra. Não que ele precisasse se mover muito para derrotar ambos os lados da guerra. Sua mera presença era o bastante para enlouquecer até o mais experiente dos heróis e vilões ali presentes, fazendo-os serem corrompidos pela sua loucura, levando-os até mesmo ao suicídio, ou pior, a conversão para o lado da Tormenta.
Evitando olhar para fora do Kishin, apenas ouvindo os terrores que aconteciam lá fora, o grupo de heróis subia pelos corredores em busca de alcançar o Mestre Arsenal. Indiferente do que estava acontecendo eles precisavam cumprir sua missão. Um dos membros que mais se dedicava a manter os companheiros firmes diante de qualquer perigo era Ancalime Menda, uma paladina e uma guardiã da realidade, que lutava em nome da Deusa dos Humanos, Valkaria.
Nunca abalada, ela fazia o que podia para ajudar seus companheiros, mesmo que tivesse de carrega-los ou entrar na frente das armadilhas inevitáveis do Kishin para ser ferida no lugar dos demais. Nenhum dos membros daquele grupo era mais leal do que ela e nenhum era mais honrado. Contudo, mesmo para ela, a Tormenta era mortal.
Inesperadamente, um corredor foi rompido e começou a desmoronar. Para os que olhassem pelo lado de fora, veriam os milhões de dedos macabros de Urazyel atravessando o chassi do Kishin e rasgando-o por dentro. Ancalime, ainda sem suas futuras asas, entrou em queda livre junto com um companheiro controverso.
Teo poderia ser visto como um oposto ao caminho honrado de Ancalime. Era um herói, mas nem de perto digno ou sagrado. Era mundano, um guerreiro mercenário que buscava resolver o que podia com seu par de espadas. O que nenhum deles sabia era que Teo já estava contaminado pela Tormenta há muitos meses, tendo um simbionte, um pequeno inseto que o corrompia lentamente em suas entranhas. Mas o Lorde da Tormenta que invadia seu corpo com aquele simbionte não era Urazyel, mas sim um ainda desconhecido. Mais ardiloso. Mais esperto.
O membro do grupo mais próximo dos dois esticou os braços e conseguiu pegá-los, mas era franzino demais para aguentar ambos. Tinha meros segundos para decidir quem soltar antes que os dois caíssem e os berros heroicos de Ancalime dizendo para soltá-la influenciaram sua decisão. Teo foi puxado enquanto a paladina ia de encontro as estruturas abaixo, exposta a batalha, mas mais ainda, exposta ao Lorde da Tormenta.
De súbito, sem que os outros membros do grupo soubessem a razão, Teo se atirou pela borda atrás de Ancalime. Era de seu feitio ajudar os membros do grupo, mas até ele deveria saber que ir atrás dela não iria salvá-la. Apenas condenar ambos. O que os demais não sabiam era que o guerreiro não estava sob controle do próprio corpo.
Enquanto os dois em queda rolavam em meio aos destroços, quicando e sendo feridos, o resto do grupo decidiu que seria mais sensato cumprir a missão, afinal havia a chance serem levados pelos deuses para fora daquele terror antes que os dois condenados vissem Urazyel. Uma vã esperança.
Ancalime, exausta pela queda, tentando não olhar para o horror, ficou de joelhos, certa de sua condenação, mas fiel que sua deusa poderia salvá-la. Teo surgiu no instante seguinte, se ajoelhando a frente dela. Ao fundo, o temido Lorde das Sanguinárias devastava as montanhas, os exércitos e os colossos, um sol nascia vermelho, como se soubesse que era uma manhã de vitória para a Tormenta, brilhando sobre os restos retorcidos de infinitas placas e pedaços dos gigantescos golens. Corpos choviam em todas as direções, loucos, mortos ou convertidos.
Teo tomou o rosto de Ancalime e foi quando ela viu o olhar vazio de seu amigo. Primeiro, ela ficou incrédula de vê-lo ali com ela, depois, ficou incrédula de vê-lo se aproximando e beijando-a. Foi então que, sentindo as incontáveis patinhas de lampreia, roçando seu céu da boca e adentrando sua garganta, ela entendeu.
Entendeu que foi salva da loucura causada pelo Lorde Urazyel, apenas para ser corrompida pelo simbionte de algum outro Lorde. Um Lorde mais esperto. Um Lorde mais ardiloso. Um Lorde que teria sob seu controle, não um, mas agora dois dos heróis mais poderosos daquela realidade.
Ainda dentro do Kishin, a missão foi cumprida pelos demais e todos, incluindo os dois ajoelhados diante do apocalipse, foram levados magicamente pelos deuses ao próximo passo de seu desafio...

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