sábado, 20 de junho de 2020

MANCHETE – O LADINO


Esse conto se trata de uma matéria da Gazeta do Reinado, um trecho do jornal mais famoso do mundo de Arton. Ele foi inspirado por Arone Vento-Uivante, um ladino de Rafael Figueiredo.


Ah... O Ladino. Conhece? Não? Eu duvido! Em algum momento da sua vida você, com toda certeza, cruzou com um. Talvez não saiba que ela era um ladino e isso significa que ele era um dos bons. Em grupos massivos de heróis poderosos espalhados por toda Arton, poucos são bem-sucedidos em suas empreitadas sem um desses ao seu lado.
O motivo? Simples! O ladino é um sobrevivente. Acha que um patrulheiro das florestas ou um druida são mais focados nisso? Sinto muito, mas está um pouco enganado. Chegam momentos na vida dos dois onde poderes místicos envolvem suas capacidades ou eles ganham ajuda de criaturas poderosíssimas.
O ladino não. Porque se ele for místico demais, chama a atenção demais, se ele for acompanhado, terá dificuldades em fazer a companhia dar conta de se mover no ritmo dele. Mesmo em um grupo grande, o ladino está solitário e precisa contar sempre com isso para sobreviver. Munido de armas pequenas, armaduras frágeis, uma quantidade contada e limitada de artimanhas e ferramentas, sua maior qualidade está nas suas habilidades e na esperteza com que usa elas.
Existem exceções? É claro que existem, afinal um ladino pode seguir para muitos caminhos diferentes, mas normalmente quando faz isso, limita uma de suas maiores qualidades: a versatilidade.
Discorda? Então me diga você como é possível alguém tão mundano, estar cercado de aliados que invocam poderes divinos e arcanos estrondosos, estar cercado de ameaças cósmicas e destruidoras de planetas, mas ainda assim, ser essencial em um grupo e o responsável pela sobrevivência dele em incontáveis vezes.
Falo com propriedade. Essa matéria é sobre como conheci um.
Pessoalmente fui até sua antiga casa, aqui mesmo em Valkaria, onde ele aprendeu o básico antes de se tornar o que eu considero o maior ladino de Arton. Sim, eu sei que ele é um ladino, mas todos de Valkaria sabem. O amigo arcano dele fez questão de torná-los bem famosos depois de terem libertado Valkaria.
Arone Vento-Uivante é seu nome e devo dizer a vocês que conhecê-lo foi... Mundano. Eu sei que estou falando de um Libertador, mas quando entrei naquelas ruínas de uma guilda de ladinos velha e abandonada, seguindo a orientação de um contato, e vi Arone em pé, olhando mais para as lembranças daquele lugar do que para o lugar em si, foi como ver um jovem adulto, de não mais que 23, 24 invernos, simples, esguio e nitidamente ameaçador é claro, como a maioria dos aventureiros, mas nada além disso.
Pedi alguns instantes com ele. Tinha um olhar vazio, do tipo que já viu muita coisa e não tinha um deus ou um demônio para protegê-lo de tudo aquilo. Era só ele. Fiz perguntas sobre a jornada de sua vida. As repostas foram inesperadamente simples:
·        Ele aprendeu a ser ladino na guilda Vento-Uivante que foi queimada e destruída por ele ter se envolvido com um assalto que iria ferrar com um nobre de Valkaria corrupto.
·        Se uniu aos futuros Libertadores, quase sendo morto por um deles, graças as suas habilidades.
·        Foi preso e obrigado a lutar na batalha do Forte Amarid, onde foi morto.
·        Ressuscitado pelos deuses à pedido de seus demais companheiros, rapidamente se envolveu com a Libertação de Valkaria.
·        Dentro dos desafios da estátua que aprisionava a deusa, foi envenenado, explodido, assassinado, afogado, amaldiçoado, transmutado e aprisionado por magia inúmeras vezes. Foi de longe o membro da equipe que mais precisou ser ressuscitado pelo poderoso clérigo do grupo.
·        O faziam ir na frente, investigar primeiro, reconhecer as ameaças e até mesmo tentar lidar com elas sozinho, antes da equipe se envolver diretamente.
Eu me perguntava, conforme ele respondia, se ser um ladino não estava diretamente relacionado com algum senso de autodestruição ou suicídio.
Ele me contou que quando teve medo de seguir na frente, foi coagido pelo grupo a fazer isso. Eu perguntei a ele o motivo de ter concordado com esse absurdo, mas ele calmamente me respondeu:
– Era minha função... É o que ladinos fazem...
Cercado por um clérigo e um arcano extremamente poderosos, uma guardiã da realidade de Valkaria e um guerreiro que atacava tão rápido quanto um relâmpago, eu apenas me questionava como Arone tinha coragem para continuar.
Ao perguntar para ele, as respostas eram tão mundanas quanto a de qualquer um. Era o trabalho dele. Alguém tinha de fazer.
Eu sei que a maioria dos fãs dos Libertadores admiram muito os demais heróis e poucos reconhecem Arone, mas deixo aqui minha declaração final:
Se existe um herói que realmente represente o povo comum, os humanos de Valkaria e de todo o Reinado, esse é Arone, pois mesmo sendo tão mundano quanto qualquer um de nós, cumpriu seu dever do começo ao fim, sendo motivado apenas por algo que ele mesmo não quis dizer.
A Ambição Humana.
– Will Bummer; Seção: Humanos de Valkaria

Nenhum comentário:

Postar um comentário