Conto
inspirado em um desafio da minha própria mãe, Nelma Viviane, que propôs escrever
sobre professores no período da pandemia.
Despertador do celular toca.
Lá vai ela mais uma vez. Olhos pesados e inchados, o cabelo tão incompreensivelmente
bagunçado que parece conto de horror Lovecraft, ombros caídos e mãos tateando
em busca dos óculos.
Um caminhar lento,
sofrido, pesado até o banheiro. Olhando pela janela, o sol mal nasceu. Alguns da
casa acordam com ela passando e perguntam:
– Mas você está em casa!
Porque acordar tão cedo?
Pra evitar surtar e
enforcar um familiar querido, ela respira e responde:
– Preciso organizar a pauta
da próxima reunião...
E volta ao caminhar lento
banheiro adentro. A porta fecha. Ela tenta parecer mais apresentável. Antes, só
tinha que dar as caras para os alunos e os companheiros de serviço, agora,
precisa dar as caras para os alunos, os pais, a coordenação, a diretoria, as
vezes até ao prefeito e outros membros da câmara municipal.
Mas não para por aí. Se
ela vai fazer isso da casa dela, precisa deixar a casa apresentável. Lá vai
ela, mais ativa, o cabelo dentro dessas exigências de beleza social sem falar
nos cremes, gilete, enfim... Para quem acorda depois e vai olhar a casa, parece
um contraste de duas realidades.
O local pra onde a webcam
aponta está mais organizado do que uma orquestra sinfônica. Ao redor, um
furação que espalhou tudo para longe da área organizada em uma bagunça que
lembra uma obra de arte surrealista. E não adianta ser só um cenário vazio,
precisa passar boa impressão, livros, uma estante bonita, um quadro talvez...
Oh, não! Os filhos
acordaram com o barulho dela. A partir de agora é oito ou oitenta. Correr para
arrumar comida, ajeitar onde eles comerem, garantir que nada perigoso esteja ao
alcance do menor, dar as ordens das tarefas de casa de cada um e ainda contar
que eles vão entender que ela está trabalhando e precisa de silencio no cômodo
onde vai fazer a reunião. A outra opção, claro, é surtar, mandar geral calar a
boca, dizer pra se virarem com o que comer e que se alguém encher o saco vai
sofrer.
Como ela decide qual dos
dois métodos usar?
Depende do dia. Tem dia
em que ela acorda bem, feliz, satisfeita consigo mesma e nem o cabelo
perturbador a incomoda. Mas têm esses carinhas chamados hormônios, sabe? Aquele
monte de substancia química que corre pelo nosso corpo fazendo tudo funcionar?
Então... Pra mulher poder engravidar e etc. ela tem uma quantidade de hormônios
muito mais insana que qualquer homem... E quando eles decidem estragar com o
dia dela, meu amigo, cala a boca ou vai sofrer. E o pior é que depois o surto
hormonal vai embora e ela ainda tem que lidar com a culpa de como tratou os
outros... É... Que coisa.
Bom, tudo pronto. Ela
senta na frente do computador. Manda ver na pauta, organiza documento, pega referência,
faz slide, tudo dentro dos limites dela, de tudo que ela já pode estudar e
ainda estuda porque o mundo ao redor não parou de girar e tem informação nova
chegando a todo momento. Faltam 30 minutos pra começar.
O celular vibra com uma
mensagem. A reunião foi adiada para o dia seguinte porque a prefeitura não tem
um representante do setor de compras disponível... É... Que coisa.
Dia seguinte.
A nova rotina se repete. Tudo
pronto. A reunião não foi adiada de novo. Ela tem tudo na ponta da língua. A
reunião começa e tem um repórter da TV local online junto com os demais
professores e membros da educação.
Ninguém avisou ela do repórter.
Ela pergunta:
– Por quê?
Eles respondem:
– Você não recebeu o e-mail?
Ela vai até o e-mail
dela. Nada sobre repórter. Ela explica que não chegou. Eles respondem:
– Ah! Essas tecnologias
de hoje vivem dando problema, né? Mas tudo bem, sabemos que você vai dar conta!
Só não se esquece que é uma live, está tudo ao vivo!
O cérebro dela decide
entrar em pânico e dar um branco em tudo que ela sabe, nenhuma novidade,
costuma ser sempre assim. Ela começa com gaguejos e improviso, mas aos poucos a
coisa começa a caminhar, afinal, há dias ela estuda o que vai falar, mesmo
tendo todas as outras ocupações de estar em casa.
A explicação dela acaba.
Hora de abrir para perguntas. Ela se prepara mentalmente para reagir a qualquer
pergunta imprevista e é exatamente uma dessas que vem, do repórter, mas não pra
ela, pro membro do setor de compras.
Já se passaram 30 minutos
e todas as perguntas só giraram em volta dos projetos da prefeitura para o
benefício da cidade, até porque é obvio que saber se com a ausência de aulas,
aproveitarão para pintar as escolas com cores novas do que saber sobre nova
sugestão para a educação do município frente aos imprevistos da pandemia.
Finalmente alguém faz uma
pergunta dirigida a professora:
– Vamos ter pausa para o
almoço?
Ela, sabendo que pode
destruir toda a carreira que conquistou, simpaticamente diz que a reunião
acabará antes do almoço e eles não precisam se preocupar. Se dependesse dela,
acabaria naquele exato instante inclusive.
De qualquer forma, quando
acaba ela considera que pelo menos foi ouvida e que diante dos problemas do
município, não há alternativa se não aceitarem a proposta dela.
No dia seguinte, ao abrir
o próprio e-mail, a resposta:
– Senhorita Professora,
infelizmente temos de recusar sua proposta, pois ela não é condizente com as
exigências do Ministério da Educação de nosso estado. As leis vigentes nos
impedem de aceitar o seu método, mas não se preocupe, pois métodos atuais
propostos pelo nosso governo estadual foram analisados pelo prefeito e serão
aplicados por profissionais terceirizados por um custo bem satisfatório.
A mente da professora é
inundada de argumentos: eu faria de graça, eu conheço o município, eu conheço
os alunos, eu conheço todos os profissionais envolvidos no projeto, eu dediquei
centenas de horas aos estudos do método perfeitamente moldado as condições do
próprio município, eu...
Exaustão. Dúvida. Vontade
de desistir de tudo.
Uma mensagem no celular.
Ela lê:
– Olá professora! Sou a
mãe do João! Muito obrigada pelo método sugerido na reunião! Eu era uma das
moradoras vendo sua explicação pela TV local e usei com meu filho ontem a noite. Ele compreendeu
a matéria! Deus te abençoe!
Ao bloquear o celular, a
professora vê o próprio rosto na tela. Está sorrindo. Um sorriso tão bobo e
inocente quanto o de João ao entender a matéria na noite passada.
E assim, a professora
levanta da cama e a nova rotina se repete.

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